Cozinha

Haja clássico…

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O mundo é composto por mudança mas por vezes as melhores coisas são aquelas que não mudam, ou melhor, que mudam pouco. Há um apego especial às coisas que mudam pouco num mundo em que existe pouco tempo para processar as coisa tais como elas são.  E por isso vamos amando o nostálgico, não propriamente o antigo,  mas daquilo que recordamos ser de um tempo que não volta. Um clássico é mesmo isso, um recordar como era, como foi e como gostaríamos que sempre fosse (nem sei se tal faz sentido gramaticalmente, mas fica a ideia). Um clássico é a justaposição de duas entidades separadas por uma trincheira. Não trincheira de guerra, não aquela que separa mas aquela que aglutina, aquela de cacau. Um clássico é uma cobertura com manteiga farta e condensado de leite quanto basta, ou seja, sempre um pouco mais do que o livro diz. E não são os livros para isso mesmo, para deles fazermos uma coisa ainda melhor!? Um clássico é o uso de ovos, porque o ovo é tão fundamental para a doçaria Portuguesa como o Nicola para os versos de Bocage. Poderia “Besta e mais besta! O positivo é nada…” alguma vez ser concebido num salão de chá?! Por mais aproximações infinitesimais de linhaça que se inventem – com as quais por vezes brinco, confesso –  um ovo será sempre um ovo, fundamental até sua forma, até na sua arte de questionar afinal o que veio primeiro? E tudo isto por causa de um clássico, bem haja! Boa noite…

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insólito, Livros

Bobok, bobok…

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Feijão, feijão. Em Russo é um termo para designar alguém de parvo ou qualificar uma situação de ridícula. És um bobok! Uma sátira do grande mestre em conversa com os mortos. Mortos esses que continuam a falar e jogar às cartas depois da enterrados numa espécie de “inércia da consciência”. Uma delícia de leitura com apontamentos dignos de registo. Por exemplo, a evidência de que já não existirem pessoas espertas pois ninguém  aparenta ter a capacidade de auto-crítica, ou nas palavras de Dostoievski, a capacidade de se auto-intitular de parvo, pelos menos uma vez por mês! Bonok, bobok…

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Fissura…

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Dessa fissura cresço sem me preocupar com o amanhã. Basta-me um pouco de terra, uma nesga de humidade e a sombra de uma pedra. Prescindo de companhias, não porque não as queira, mas simplesmente porque não me acompanham. Então vou em paz e que ninguém me acompanhe. Quando morrer não volto à terra, apesar dela ter nascido. Volto ao cimento, decaio no passeio, levado por um cão, quem sabe? Esta é por ventura a coisa mais paradoxal da minha curta existência. Consumado o facto resta-me deixar uma sementinha aqui mesmo, na mesma fissura que ao mesmo tempo me aprisiona e liberta. Fosse eu mais esperta e nasceria noutro lugar, mas enfim, este parece-me tão bom como outro qualquer, apenas um pouco mais duro.

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Outros, Política

São Martinho…

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Martin Schulz foi hoje (sim no domingo!) oficialmente nomeando novo chefe do SPD. Fica assim culminado um processo orquestrado pelo SPD para trazer o partido de volta ao radar político da população. Tudo começou com o anúncio de não recandidatura de Joachim Gauck a um novo cargo presidencial citando idade avançada. E ainda bem! Onde já se viu um padre (ou pastor, ou lá que cargo é esse) chegar a presidente! Na Alemanha o cargo presidencial não é sujeito a voto directo da população mas sim a voto parlamentar. A poucos meses das eleições Federais de Setembro, o SPD foi inteligente ao ver esta janela de oportunidade e propôs Steinmeier (ministro dos negócios estrangeiros do governo de coligação CDU-SPD) como candidato. Dado a sua popularidade e o apoio de toda a coligação, Steinmeier foi rapidamente votado como novo presidente da Alemanha. Entretanto Schulz anuncia que deixara a conveniência do parlamento Europeu para regressar a casa e ajudar o seu próprio partido num momento difícil. E regressou não apenas como um elemento do SPD mas sim como O candidato do partido à eleições parlamentares de Setembro! O efeito Martin Schulz, ou São Martinho, como eu gosto de referir, foi inesperado. Em poucas semanas as sondagens põe-no a par com a senhora Merkel para o cargo de chanceler. E assim, sem quase ninguém dar por isso, o SPD toma de assalto a política Alemã.

Ainda muita água vai correr pelo moinho mas uma coisa é certa, o SPD surge revitalizado por um elemento improvável, um burocrata de Bruxelas, imagine-se! Um daqueles que quando por lá se encontram caem no esquecimento da população e da comunicação em geral. No fundo, a salvação para a Alemanha pode vir precisamente do mesmo parlamento que hoje em dia tanta aversão causa a tantos intervenientes políticos. Explico… Para mim a grande missão de São Martinho não é com Merkel e penso ele sabe bem disso. A sua missão principal é pôr o SPD nuns sólidos 33% (depois dos míseros 25% das eleições passadas), erro estatístico das sondagens incluído. Depois fica tudo em aberto e deixado à vontade pouco invariável do Alemão que vota ora neste ora naquele. De igual modo, espero de São Martinho um discurso aglutinador para com as outras forças de esquerda de modo a captar o voto do trabalhador Alemão descontente, um voto que tem vindo a ser perigosamente filtrado para forças de inspiração dúbia e xenófoba, por outras palavras a AfD. É crucial uma esquerda forte numas eleições que se advinham difíceis dado o novo e inconveniente jogador político capaz de mobilizar a irracionalidade para a mesa de voto. Mais do que ganhar as eleições São Martinho deve-se concentrar em ganhar a esquerda e devolver-lhe o seu lugar de importante força política Alemã. Mais do que ganhar as eleições São Martinho deve tentar ganhar a Alemanha do cidadão comum. Como sabemos, o sucesso económico não previne a ascensão de grupos políticos intolerantes, mas o carisma de um candidato pode. Tudo indica de Merkel tem grandes hipóteses de vencer, e disso não duvido, mas é no carisma de Schulz e na sua capacidade em mobilizar o eleitor comum que reside a supressão de forças políticas extremas.

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Cidades, insólito

Rugas necessárias…

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“Capitalismo é estúpido”

São mais do que palavras escritas na parede que se esmigalha. É mais do que a impureza da fachada com nódoas de graffiti. É mais que o som punk metálico filtrado da cave. É mais que o azul giratório da visita policial. É a variedade da diferença, ou seja, a precondição para a sobrevivência da uma sociedade justa.

Poderia eu viver em tal espaço? Não. Partilho eu de todos os ideais que por lá se interiorizam e vivem? Não. Adoro a estética turva das paredes? Não. Constituem estas razões para que deseje a sua destruição? Não! Quero que esta casa e todas as outras como ela sobrevivam pelo simples e fundamental facto que são elas o último bastião da heterogeneidade. A perda destas casas “ocupadas” é uma perda automática na variedade da cidade e por consequência na sua capacidade em discutir. Do ponto de vista pessoal, a sua perda seria um ataque à minha liberdade de lá poder entrar, de lá poder argumentar e de lá poder ouvir um concerto sem ter que pagar entrada.

Na sua busca pela pureza estética do prédio-fachada, os urbanistas e arquitectos vão empurrando a cidade para o seu pior destino, a beleza, a ausência da mais pequena ruga, o apagar da imperfeição. Os únicos traços de carácter numa face que se torna assustadoramente comum.

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Intercalado…

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Hambúrguer de peixe e camarão com puré de batata doce. 

Intercalar… que verbo curioso. Eu intercalo, tu intercalas, ele… Ó pá, está calado! Não vez que estou a tentar repousar? Já não pode um peixe dormir. Mais que raio de vida… Já não bastava ter sido triturado a  teu lado, frito contigo às costas, adornado  com a tua presença e ainda tenho que escutar as tua prosa marada. Mas que mal fiz eu para acabar redondo com o camarão intercalado na minha carne? Não podiam ter feito de mim aquilo que eu sempre fui… um belo filete! Não…tinham que me amassar, condensar e interiorizar com o idiota do camarão. Cala-te, já te disse. És idiota sim senhor, és um falso. Queres provas. Olha, para começar curvas-te em penitência mal haja um fio de calor e coras por tudo e por nada, ficas vermelho que nem… olha que nem um camarão, pronto. Não, não vou subir para cima da batata porque não me interessa o que está para além da borda do prato. Deixa-me em paz na minha agonia de pitéu.

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