Lugares, Untitled

O Junqueira…

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Dumskaya nrº 7

O Junqueira encosta a alma
Na parede que o sustenta
O frio da escuridão
Baila na sua marcha lenta.

Chegado a casa treme mas não de frio
Pelo corpo que jaz no fundo do rio.
Junqueira ninguém te viu.

O Junqueira não tem medo
Da justiça que é terrena
E a outra que se diz divina
Sabe não valer a pena.

A porta abre e uma sombra cai dentro de si
Corre como quem foge de Nagasaki.
O Junqueira não mora aqui.

O Junqueira diz que não,
O tiro era mesmo para seu irmão!
Que de forma quase abençoada
Maltratava esposa, filha e sogra amada.

É a aritmética de um pecador sem jejum
Para baixar o mal do Mundo comum,
Dantes sofriam três, agora sofre um.

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Outros, Untitled

Vocês primeiro…

Ergo a cabeça para escolher os mais esguios, aqueles que se submetem melhor ao beijo da combustão. Tento que o exército de pinho não se desalinhe muito pela perda de alguns débeis soldados. Aprendi com o tempo que a eliminação do mais insignificante palito pode fazer desmoronar todo um regimento de troncos robustos que se consolam com a preguiça da parede.

Se estes não servirem voltarei para levar reforços. Mas é melhor que sirvam já que o gelo da noite ainda mina o atalho até ao quartel. Um passo em falso e lá se vão meia dúzia ao chão, eles e eu. Mas no fundo no fundo até vamos confiantes em dar conta do recado. Subimos o atalho sem olhar para trás, quem cair por lá fica. No topo do pequeno batalhão aninham-se granadas cónicas, fartas e abertas, redondas e fractais, a pedir que lhes soltem depressa as cavilhas, ou um fósforo. Se pudessem rebentavam logo ali mas eu aconselho-as a durar um pouco mais – e elas obedecem. Até o soldado mais estúpido é bom numa coisa, seguir ordens estúpidas, e um pau não é assim tão diferente de um soldado estúpido. Se é para morrer, então que a vossa morte valha alguma coisa para alguém.

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Vamos a isso… está na hora da emboscada ao quartel. Primeiro o batedor avança até à trincheira de tijolo gasto, sim, essa mesmo, marcada pela cinza de outros como tu. Ai o soldado pensava que isto do exército era só comer e dormir!? Pois bem, tem algo mais para além disso. Tem também essa coisa chamada sacrifício. Vá lá, sem demora. Deite-se de casca para cima e fique de vigia. Nunca se sabe quando o vento pode atacar e apagar a operação. Muito bem pessoal, o batedor já está em posição. Avancem as granadas devagarinho. Isso mesmo, todas alinhadas atrás do batedor e prontas para a sua perdição.

Ao meu sinal riscamos o fósforo. As granadas explodem e abrem o caminho. O batedor dá apoio à nossa incursão e nós, bravos camaradas de pau, lançamos-nos ao calor das chamas  como se não houvesse amanhã. Sim sim, ouviram bem! Lançamos-nos, tanto vocês como eu… mas vocês primeiro enquanto eu aqueço as mãos.

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