Lugares, Política

A verdadeira face das sanções…

Passados quatro anos de sanções económicas e política à Rússia, importa escrutinar as implicações do caminho escolhido para castigar a anexação da Crimeia e a desestabilização do Leste da Ucrânia.

Ponto de situação: O conflito na Ucrânia permanece congelado e longe dos olhares mediáticos dos jornais. A Crimeia permanece sobre administração Russa sem que seja visível qualquer descontentamento para impor uma reversão da soberania. A tão anunciada segregação da comunidade Tártara ou não aconteceu ou se aconteceu ninguém deu por isso. No plano Mundial a Rússia parece ter-se tornado a nova potência informática dada aparente facilidade com que se intromete nos resultados de eleições de países muito mais desenvolvidos.  Tal parece ter sido o caso nos Estados Unidos. Macron também seu a entender que En Marche sofreu ataques Russos e até a Alemanha está redobrar esforços para proteger as eleições de Setembro de piratas Moscovitas.

Na síria a Rússia continua a defender a permanência no poder de Assad e, se quiser, bombardeia como lhe apetece. Finalmente, o grande culpado de tudo, Vladimir Vladimirovich Putin, continua a desfrutar de um imenso apoio popular. Se alguma esperança havia de vergar a população pela via económica a mudar de líder, tal parece não estar a resultar.

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Babuskas a vender legumes perto da estação de Lomonosovskaya. O mercado informal cresceu desde 2014 como forma de compensar a perda de poder de compra. 

Se no plano político tudo permanece quase igual, ou ligeiramente pior, à situação vivida em Março de 2014, onde podem ser vistas as verdadeiras consequências das sanções? Estas podem ser observadas no local onde nenhum político que as sugeriu se atreve a ir; às ruas e às casas das pessoas comuns. Basta um número de entre tantos possíveis para  cristalizar de forma fria a nova realidade do Russo comum. Em 2015 a Rússia viu crescer em 3 novos milhões o número de pobres (rendimento diário inferior a 5 Euros). Um ano, três milhões de novos pobres.  Esta é a verdadeira face das sanções. Pessoas empurradas para a destituição por capricho daqueles que pensam saber fazer diplomacia. Pessoas que não têm culpa alguma nos desígnios política Russa. Admitir que a culpa das sanções é no fundo dos que elegeram um líder expansionista implica reconhecer que o povo Russo tem um sistema democrático livre! Algo que simplesmente não é verdade.

Como adiro ao principio de Russell de que “não deve existir nada merecedor de consideração por parte de um político a não ser o melhorar da vida do cidadão”, as sanções económicas impostas à Rússia são um fracasso.

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Outros, Política

São Martinho…

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Martin Schulz foi hoje (sim no domingo!) oficialmente nomeando novo chefe do SPD. Fica assim culminado um processo orquestrado pelo SPD para trazer o partido de volta ao radar político da população. Tudo começou com o anúncio de não recandidatura de Joachim Gauck a um novo cargo presidencial citando idade avançada. E ainda bem! Onde já se viu um padre (ou pastor, ou lá que cargo é esse) chegar a presidente! Na Alemanha o cargo presidencial não é sujeito a voto directo da população mas sim a voto parlamentar. A poucos meses das eleições Federais de Setembro, o SPD foi inteligente ao ver esta janela de oportunidade e propôs Steinmeier (ministro dos negócios estrangeiros do governo de coligação CDU-SPD) como candidato. Dado a sua popularidade e o apoio de toda a coligação, Steinmeier foi rapidamente votado como novo presidente da Alemanha. Entretanto Schulz anuncia que deixara a conveniência do parlamento Europeu para regressar a casa e ajudar o seu próprio partido num momento difícil. E regressou não apenas como um elemento do SPD mas sim como O candidato do partido à eleições parlamentares de Setembro! O efeito Martin Schulz, ou São Martinho, como eu gosto de referir, foi inesperado. Em poucas semanas as sondagens põe-no a par com a senhora Merkel para o cargo de chanceler. E assim, sem quase ninguém dar por isso, o SPD toma de assalto a política Alemã.

Ainda muita água vai correr pelo moinho mas uma coisa é certa, o SPD surge revitalizado por um elemento improvável, um burocrata de Bruxelas, imagine-se! Um daqueles que quando por lá se encontram caem no esquecimento da população e da comunicação em geral. No fundo, a salvação para a Alemanha pode vir precisamente do mesmo parlamento que hoje em dia tanta aversão causa a tantos intervenientes políticos. Explico… Para mim a grande missão de São Martinho não é com Merkel e penso ele sabe bem disso. A sua missão principal é pôr o SPD nuns sólidos 33% (depois dos míseros 25% das eleições passadas), erro estatístico das sondagens incluído. Depois fica tudo em aberto e deixado à vontade pouco invariável do Alemão que vota ora neste ora naquele. De igual modo, espero de São Martinho um discurso aglutinador para com as outras forças de esquerda de modo a captar o voto do trabalhador Alemão descontente, um voto que tem vindo a ser perigosamente filtrado para forças de inspiração dúbia e xenófoba, por outras palavras a AfD. É crucial uma esquerda forte numas eleições que se advinham difíceis dado o novo e inconveniente jogador político capaz de mobilizar a irracionalidade para a mesa de voto. Mais do que ganhar as eleições São Martinho deve-se concentrar em ganhar a esquerda e devolver-lhe o seu lugar de importante força política Alemã. Mais do que ganhar as eleições São Martinho deve tentar ganhar a Alemanha do cidadão comum. Como sabemos, o sucesso económico não previne a ascensão de grupos políticos intolerantes, mas o carisma de um candidato pode. Tudo indica de Merkel tem grandes hipóteses de vencer, e disso não duvido, mas é no carisma de Schulz e na sua capacidade em mobilizar o eleitor comum que reside a supressão de forças políticas extremas.

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