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Plágio square…

A propósito de um cantor famoso impõe-se a pergunta: quando foi a última vez que fizeste algo de original?

Existem três dimensões que importa reflectir sobre o acto do plágio: a dimensão legal, a dimensão moral individual e a dimensão moral colectiva. A primeira é técnica e cinzenta; pão para pardais (advogados). A segunda, fazem-nos querer, é responsabilidade da pessoa/s que cometem plágio. Em nome dessa tal moralidade acusa-se e por sua ausência condena-se. O acusado reage da maneira que pode, isto é, nas entrelinhas escritas pelos pardais. Afinal admite à Sociedade Portuguesa de Autores não ser “autor” mas sim “adaptador”. A dúvida sobre a moralidade não desvanece e abre terreno fértil para a propagação da opinião pública. A favor ou contra, quase em proporções idênticas, o discurso vai morrendo até que outra notícia, mais ou menos importante, mude de faixa. Nada se perde mas tudo se esquece. É pena que assim seja porque tal implica que a última dimensão do plágio fique sempre por analisar; a dimensão moral colectiva, aquela da qual não podemos escapar.

Ainda que legalmente confirmado e individualmente confessado, a verdade é que o plágio está colectivamente enraizado. Só assim é possível que se levante um processo por causa de alguém que aparentemente plagiou músicas de outros sem se questionar que o próprio plágio é plágio de si próprio. Que as músicas copiadas são elas próprias cópias de si mesmas. Rima cruzada; “tu” “eu” “amor” “volta” no título; três minutos e pico, duas estrofes, três vezes refrão. Até as bailarinas são plágio uma da outra porque o público masculino assim delicia-se a dobrar. Resultado? Poder mediático acima de tudo e um milhão de discos de platina debaixo do braço. Ora a cerca de 30 € a grama, com uma recompensa destas quem é que não é tentado a plagiar? Culpa nossa que incentivamos e compramos o plágio em vez de preferir a originalidade; originalidade que é tão fácil hoje em dia de descobrir e comprar. Culpa nossa que “sacamos da net”. Culpa nossa que preferimos aquele que “com a força de deus venceu”, em vez daquele que, se calhar até nem vence, mas que faz tudo pela sua própria força.

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Outros

Plano eléctrico…

Em 2014 a produção de energia eléctrica em Portugal rondou o 49000 GWh para satisfazer um consumo total de aproximadamente 48800 GWh. No que diz respeito à distribuição mensal de produção eléctrica os meses de Janeiro a Março foram caracterizados por um excedente de produção a rondar os 700-500 GWh. Situação praticamente inversa teve lugar nos meses de Julho a Setembro. Não fosse a consoada e muito provavelmente o mês de Dezembro seria um mês de saldo eléctrico positivo.

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Todos os dados disponíveis no site ENSOE e referem-se ao ano de 2014.

No que diz respeito às fontes de produção eléctrica, uma boa parte dela provém de fontes renováveis (gráfico à direita) com destaque para a energia hídrica e eólica. Electricidade gerada por via de biomassa perfez apenas 5% da produção renovável enquanto que a fracção solar mal chega ao 2% (em comparação este valor na Alemanha ronda os 7%). Em 2014, mesmo durante os meses em que energia renovável atinge o seu mínimo (Junho-Setembro), a produção de electricidade de fontes renováveis é responsável por 44 a 50% da produção total de electricidade. As fontes fósseis (gráfico à esquerda) ajudam Portugal a aguentar o Verão com um pico de produção entre Julho a Setembro na casa dos 2000 GWh; mesmo assim insuficientes para satisfazer o consumo nesses meses (ver gráfico anterior).

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Sem nos preocuparmos com políticas nem preços (afinal de contas desde quando é que o ser humano é racional?), imaginemos o seguinte exercício de lógica: Qual a capacidade extra a ser instalada, para que em cada mês do ano a produção eléctrica Nacional seja garantida em 80% por fontes renováveis? Mais! Sabendo de antemão que a capacidade hídrica se encontra saturada e que a construção de novos parques eólicos estagnou, por quantas vezes teríamos de multiplicar a presente produção solar e de biomassa para atingir a referida meta? Claro está, assumindo que poderíamos proceder ao armazenamento da energia solar em nossas casas para as horas de maior consumo.

Em primeiro lugar as boas notícias. Em 2014, um mero aumento de 0.3 a 0.5 vezes da capacidade instalada de biomassa seria suficiente para atingir a meta dos 80% de electricidade limpa fornecida nos meses de Janeiro a Abril. De modo a manter o uso de electricidade de fontes fósseis nos 20% durante os meses de Maio a Dezembro, seria necessário duplicar a capacidade instalada de biomassa e multiplicar entre sete a 20 vezes a capacidade solar nos respectivos meses.

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A escolha entre duplicar a produção eléctrica por biomassa e empurrar a maioria do esforço para a solar é claro arbitrária. Mas tendo em conta 1) a queda acentuada dos de preço dos painéis solar, 2 ) as tecnologias de armazenamento  e 3) o potencial de crescimento em Portugal; penso ser racional admitir que a “limpeza” da energia eléctrica em Portugal passa pelo aumento significativo deste tipo de energia. Esforços em estabelecer sistemas de armazenamento viáveis estão também em curso.

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Au revoir…

Os Estados Unidos anunciaram a saída unilateral do tratado de Paris (que visa a concertação de esforços para limitar o aquecimento global). E agora? E agora nada… é que felizmente o Mundo não se rege por Trump, nem por outros como ele, mas sim pela sua própria dinâmica e inércia. Se é verdade que podemos pontualmente mudar o seu curso, também é verdade que nem todos o conseguem.

É bom ter uma perspectiva temporal dos falhanços tradicionalmente associados às negociações do clima e em particular dos Estados Unidos. Em 1998 recusaram rectificar Kyoto, em 2009 não pressionam por um acordo em Copenhaga, em 2017 dizem adieu a Paris.

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A cada descalabro negocial seguem-se anos de progresso tecnológico que reduzem as emissões Americanas de 20 para cerca de 17 Toneladas por habitante. Pouco, podemos afirmar, mas ainda assim uma redução sem que para isso seja preciso um tratado. Além disso, a tendência no curto prazo é para nova redução de emissões, o que colocará os Estados Unidos muito próxima da sua meta para 2020. O oposto teve lugar do outro lado do Mundo, com o gigante Asiático China a elevar, no mesmo período,  as suas emissões por habitante de 1.4 para quase 7.  A tendência foi sempre positiva até o ano passado em que a China viu, pela primeira vez, a sua economia crescer e as emissões caírem. O acordar da China para a eficiência energética e o abandono anunciado de muitas das suas centrais de carvão vão dar continuidade a esta tendência.

Tal parece indicar que o Mundo com que Trump sonha já não existe, nem na América nem na China e dentro em breve em lado nenhum. Não é possível de todo mudar a dinâmica interna da economia Americana em direcção à eficiência e progresso tecnológico. Esta vai continuar em busca do lucro, que, claro está, não se encontra numa tecnologia barata, totalmente estagnada em termos de desenvolvimento tecnológico e definitivamente não cool. Os investidores vão escolher as tecnologias com mais potencial de progresso, aquelas que vão estar cá daqui a 30 anos.

Ccom esta jogada o máximo que Trump vai conseguir são uns apertos de mão com uma qualquer industria mineira num deserto Republicano para daqui a 4 anos a mesma indústria descobrir que nem com subsídios lá vai, tal como vá escrevi aqui. Não por causa de Paris, mas simplesmente porque estão do lado errado do futuro.

 

 

 

 

 

 

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Ressurreição…

…e ao terceiro dia acordaram do seu sono de lata para se tornarem deusas efémeras da delícia.

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Onde estamos? Perguntam as quatro… Quem disse nos fala? Quem está ai!?

Eu, o criador! Criador da substância que vos sustenta, do calor que vos faz crescer, da bênção caramelizada que em vossas almas derrama.

E quem somos nós?

Vocês são fruto do trabalho da vida, fruto da terra e do espaço, colhidas pelo homem e preservadas pela sua indústria.

Não somos deusas?

Não… apenas fruto, tecnicamente, fatias dele.

Não somos únicas?

Não… apenas cópias uma da outra. O que a bem dizer não é problema uma vez que nós gostamos de vocês tal e qual como vocês são.

Nós? Existe mais do que um criador então?

Sim, existe, tantos que nem é possível contar. Em maior número que as estrelas e que todos os grãos de areia do mundo.

Algo está errado com esta vida após a morte. Prometeram-nos um assento à direita do nosso criador.

Não… está tudo certo porque está tudo como deve ser. A vossa vida é só de passagem e a vossa verdadeira ressurreição ainda está para vir… não à direita mas dentro, dentro de mim e de outros que vos queiram… poucos espero…

Dentro? Como assim…

Chama-se digestão, a única ressurreição possível, vossa e minha…

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Outros, Política

São Martinho…

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Martin Schulz foi hoje (sim no domingo!) oficialmente nomeando novo chefe do SPD. Fica assim culminado um processo orquestrado pelo SPD para trazer o partido de volta ao radar político da população. Tudo começou com o anúncio de não recandidatura de Joachim Gauck a um novo cargo presidencial citando idade avançada. E ainda bem! Onde já se viu um padre (ou pastor, ou lá que cargo é esse) chegar a presidente! Na Alemanha o cargo presidencial não é sujeito a voto directo da população mas sim a voto parlamentar. A poucos meses das eleições Federais de Setembro, o SPD foi inteligente ao ver esta janela de oportunidade e propôs Steinmeier (ministro dos negócios estrangeiros do governo de coligação CDU-SPD) como candidato. Dado a sua popularidade e o apoio de toda a coligação, Steinmeier foi rapidamente votado como novo presidente da Alemanha. Entretanto Schulz anuncia que deixara a conveniência do parlamento Europeu para regressar a casa e ajudar o seu próprio partido num momento difícil. E regressou não apenas como um elemento do SPD mas sim como O candidato do partido à eleições parlamentares de Setembro! O efeito Martin Schulz, ou São Martinho, como eu gosto de referir, foi inesperado. Em poucas semanas as sondagens põe-no a par com a senhora Merkel para o cargo de chanceler. E assim, sem quase ninguém dar por isso, o SPD toma de assalto a política Alemã.

Ainda muita água vai correr pelo moinho mas uma coisa é certa, o SPD surge revitalizado por um elemento improvável, um burocrata de Bruxelas, imagine-se! Um daqueles que quando por lá se encontram caem no esquecimento da população e da comunicação em geral. No fundo, a salvação para a Alemanha pode vir precisamente do mesmo parlamento que hoje em dia tanta aversão causa a tantos intervenientes políticos. Explico… Para mim a grande missão de São Martinho não é com Merkel e penso ele sabe bem disso. A sua missão principal é pôr o SPD nuns sólidos 33% (depois dos míseros 25% das eleições passadas), erro estatístico das sondagens incluído. Depois fica tudo em aberto e deixado à vontade pouco invariável do Alemão que vota ora neste ora naquele. De igual modo, espero de São Martinho um discurso aglutinador para com as outras forças de esquerda de modo a captar o voto do trabalhador Alemão descontente, um voto que tem vindo a ser perigosamente filtrado para forças de inspiração dúbia e xenófoba, por outras palavras a AfD. É crucial uma esquerda forte numas eleições que se advinham difíceis dado o novo e inconveniente jogador político capaz de mobilizar a irracionalidade para a mesa de voto. Mais do que ganhar as eleições São Martinho deve-se concentrar em ganhar a esquerda e devolver-lhe o seu lugar de importante força política Alemã. Mais do que ganhar as eleições São Martinho deve tentar ganhar a Alemanha do cidadão comum. Como sabemos, o sucesso económico não previne a ascensão de grupos políticos intolerantes, mas o carisma de um candidato pode. Tudo indica de Merkel tem grandes hipóteses de vencer, e disso não duvido, mas é no carisma de Schulz e na sua capacidade em mobilizar o eleitor comum que reside a supressão de forças políticas extremas.

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Roer 2.0…

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Vizinhos trabalhadores…

São espécie cujas as marcas denunciam a sua natureza rudimentar. São empreendedores em estado natural que gostam das pequenas grandes coisas que o Mundo lhes oferece. Não querem mudar o Mundo, apenas o querem fazer dele a sua casa, à força da dentada é certo. Nesse aspecto nada os distingue dos outros empreendedores, aqueles fabricados em tubos de ensaio mediático que desejam e acreditam, perdão, que beliiiive!

No acreditar é que está o ganho… e sabes uma coisa? Se acreditares em algo com muita convicção  e se devotares a essa coisa tudo o teu suor e lágrimas, então essa coisa tornar-se-á verdadeira. É tal e qual como a religião, só que com uma app. Não digas asneiras… achas que é melhor andar para ai à dentada, a roer em incrementos marginais de sustento 8 horas por dia, ou por noite se fores castor? Nada é melhor ou pior desde que a dignidade seja assegurada. Como nenhuma opção, por si própria, é garante de sustento universal, então é óbvio que têm de co-existir, até mesmo dentro do mesmo castor. O que as distingue então? São só as perspectivas penso.São mais iguais do que se julgam…

Por exemplo, tomemos essa árvore. Existe quem veja nela uma casa e só uma casa, enquanto que outros vêm nela um infinito de possibilidades. Existem aqueles que vivem só para a roer e outros que vivem para a re-inventar até fazer dela tudo menos uma árvore, a vontade suprema do homem sobre a coisa. Tal e qual uma perspectiva inovadora não é garante de sucesso, também uma visão de túnel não é determinante de estagnação. Tudo é válido em medida igual e eles só gostam de desatinar uns com os outros porque encontraram nessa actividade um prazer jovial, quase existencial! Uma coisa é no entanto diferente em ambos: a quantidade de mentiras, a ele próprio e aos outros, contadas durante o roer.

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Vocês primeiro…

Ergo a cabeça para escolher os mais esguios, aqueles que se submetem melhor ao beijo da combustão. Tento que o exército de pinho não se desalinhe muito pela perda de alguns débeis soldados. Aprendi com o tempo que a eliminação do mais insignificante palito pode fazer desmoronar todo um regimento de troncos robustos que se consolam com a preguiça da parede.

Se estes não servirem voltarei para levar reforços. Mas é melhor que sirvam já que o gelo da noite ainda mina o atalho até ao quartel. Um passo em falso e lá se vão meia dúzia ao chão, eles e eu. Mas no fundo no fundo até vamos confiantes em dar conta do recado. Subimos o atalho sem olhar para trás, quem cair por lá fica. No topo do pequeno batalhão aninham-se granadas cónicas, fartas e abertas, redondas e fractais, a pedir que lhes soltem depressa as cavilhas, ou um fósforo. Se pudessem rebentavam logo ali mas eu aconselho-as a durar um pouco mais – e elas obedecem. Até o soldado mais estúpido é bom numa coisa, seguir ordens estúpidas, e um pau não é assim tão diferente de um soldado estúpido. Se é para morrer, então que a vossa morte valha alguma coisa para alguém.

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Vamos a isso… está na hora da emboscada ao quartel. Primeiro o batedor avança até à trincheira de tijolo gasto, sim, essa mesmo, marcada pela cinza de outros como tu. Ai o soldado pensava que isto do exército era só comer e dormir!? Pois bem, tem algo mais para além disso. Tem também essa coisa chamada sacrifício. Vá lá, sem demora. Deite-se de casca para cima e fique de vigia. Nunca se sabe quando o vento pode atacar e apagar a operação. Muito bem pessoal, o batedor já está em posição. Avancem as granadas devagarinho. Isso mesmo, todas alinhadas atrás do batedor e prontas para a sua perdição.

Ao meu sinal riscamos o fósforo. As granadas explodem e abrem o caminho. O batedor dá apoio à nossa incursão e nós, bravos camaradas de pau, lançamos-nos ao calor das chamas  como se não houvesse amanhã. Sim sim, ouviram bem! Lançamos-nos, tanto vocês como eu… mas vocês primeiro enquanto eu aqueço as mãos.

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