Cidades, Mapas

Funchal

De que vale um número? De que vale dizer que arderam cerca de 17km2 só nas imediações da cidade do Funchal, 1700 campos de futebol para os fervorosos adeptos dos números, mas será que alguém liga a futebol nos dias que correm? O melhor é visualizar a extensão da desgraça e as rondas que esta foi fazendo pelos meandros das casas e das vidas dos que lá moram. Um Funchal cercado pelos tons de vermelho e que dizem muito mais do que a frieza dos números.

Retirei a informação do sistema EMS do programa Copernicus.

Standard
Cidades, Mapas

Estudos interiores (demografia)…

Que interior é esse de que falam? foi a questão que coloquei algum tempo atrás neste espaço. Uma pergunta que me proponho explorar numa série curta de posts. Comecemos:

Portugal é essencialmente um pais fino. Em linha recta distam pouco mais de 200km entre a costa e o município mais “interior” do país (Miranda do Douro). Na verdade, o ponto central de 80% dos municípios Portugueses encontra-se localizado a menos de 100km da costa. É  claro que as acessibilidades distorcem a linha recta, aumentando-a. Mas Portugal continua ser um país fino onde o “interior” está, geograficamente, bastante perto do litoral.

dist

Municípios de Portugal e distância à costa

 

Mas território não é só geografia, território é também as pessoas que nele vivem. O “interior” é tido como aquele onde apenas uma réstia da população vive, já que a zona costeira concentra a maioria das gentes. Assim sendo vamos lá definir onde fica a fronteira entre o “interior” e o resto de Portugal. Invocamos Pareto para nos ajudar. Definimos  como “não interior” a região onde viva 80% da população de Portugal o mais perto possível da costa, e “interior” a região onde vivem os restantes 20%.

pop_costa

Percentagem da população Portuguesa vs distância à costa.

 

A fronteira entre o “interior” e o resto pode agora ser definida como a interceção da marca dos 80% de população com a distância à costa. O resultado mostra um Portugal “dividido” por uma fronteira interior que dista sensivelmente 45km da linha de costeira. Uma vez mais, e segundo esta definição, o início do”interior” está bastante perto do litoral.

Mas o território não é só a geografia e as pessoas que nele vivem, território é também a evolução no tempo. Segundo o aspecto temporal o “interior” é, tradicionalmente, aquele território que perde população, o território do abandono. Vamos então subtrair ao número de habitantes de cada município em 2001 o número de habitantes em 2014 e distribuir os resultados segundo a distância do município à costa.

pop_dif

Variação da população entre 2001 e 2014, e a distância à costa dos municípios.

Em média, quanto mais afastado um município está da linha costeira maior é a probabilidade de este ter perdido população entre 2001 e 2014. No entanto, o fenómeno de abandono territorial é mais complexo. Por exemplo, o município do Porto tem vindo a registar uma perda de população (provavelmente para regiões vizinhas) enquanto que Vila Real regista um pequeno aumento da população. Praticamente toda a costa Alentejana perdeu população, enquanto que a costa Portuguesa a norte de Lisboa é um picotado de perdas e ganhos populacionais.  Caso o “interior” seja então definido como a região de abandono populacional reparamos que este se encontra espalhado por várias partes do território que não são, em regra, importantes centros urbanos.

A questão do “interior” não me parece pois uma divisão entre este ou aquele grupos de municípios ou distritos Portugueses, mas sim uma divisão entre o mundo rural e urbano. Neste caso, o município de Vila Real é para os municípios adjacentes o que Lisboa é para o resto de Portugal, litoral. O facto de haver pequenos “litorais” no interior é uma chatice porque força os políticos do interior a aceitar a má articulação que fizeram entre os centros urbanos e rurais dentro do tal “interior” que tanto se queixam. Como dizia (e penso que ainda diz) um docente meu nos tempos da Universidade, é tudo uma questão de escala.

 

Standard
Cidades, Mapas

Moscovo…

Uma curta viagem por cima da capital da Rússia moderna. Os palácios ficam de fora, obsoletos, relíquias, passado. O aço e vidro são os novos Czares da capital. É-me no entanto estranho toda esta técnica num país que ainda é altamente secular nas suas relações.Uma frágil modernidade vista dos céus…

Standard
Mapas

De Cevide a Viseu: Um incêndio de duas décadas.

Poucos de nós conhecem Cevide. Eu próprio confesso que nunca lá pus os pés. De Cevide sei apenas que se trata da localidade mais a norte de Portugal e o local ideal para dar início a um incêndio de grandes proporções. Quão grande? Bem… apenas igual à área de todos os incêndios ocorridos em Portugal continental entre 1990 e 2013 catalogados pelo Instituto de Conservação da Natureza e Floresta (ICNF). Assim sendo lá me desloquei até Cevide, metafóricamente claro está, com uma caixa de fósforos na mão, também ela metafórica. Risquei o fósforo e adicionei, de modo sequencial e sempre em direcção ao sul, a área de todo e qualquer incêndio superior a 1 hectare (ha) até esgotar o catálogo.

O resultado é tão simples como preocupante e pode ser visualizado nos mapas apresentados. O mega-incêndio alastrou de Cevide até às portas de Viseu, ardendo no processo cerca de 3.000.000 ha, ou se preferirem, 28% do território nacional. O mesmo exercício pode ser feito para os incêndios que tiverem lugar apenas no distrito de Vila Real. Neste caso estamos a falar numa área aproximada de 250.000 ha, um número equivalente a 57% do distrito. Começado em Tourém (terra que também nunca visitei), o incêndio alastraria até Chaves e Vidago para vir a morrer perto de Vila Pouca de Aguiar.

g4435

Representação da área ardida acumulada em Portugal Continental (esquerda) e Vila Real (direita) entre 1990 e 2013. Gráficos da % de área ardida para três níveis de frequência.

Os números parecem surreais. Em cerca de duas décadas ardeu o equivalente a quase 60% do distrito de Vila Real! Como é possível que o meu jardim ainda esteja intacto? É possível se tivermos em conta que em Portugal é “normal” a mesma área florestal, de matos ou de cultivos arder duas ou mesmo três vezes a cada 20 anos. Os gráficos de barras debaixo dos mapas mostram este fenómeno. Cerca de metade do total ardido em Portugal continental (15% do território nacional) provém de áreas que arderam uma só vez. Os restantes 13% ocorreram em áreas que arderam mais que uma vez. No caso de Vila Real esta percentagem é ainda maior. Cerca de dois terços da extensão ardida total é originária de áreas “repetentes”.

A velocidade de propagação do mega-incêndio no futuro dependerá de variáveis que todos nós conhecemos; com a negligência, o clima e a prevenção à cabeça. Caso tudo permaneça igual, o mais provável é que a totalidade do distrito de Vila Real acabe por “arder” antes do vosso filho que hoje entrou para a escola acabar a universidade.

PS: Caso estejam interessados em obter os dados utilizados e as imagens geradas deixem um comentario.

Standard
Mapas

Portugal à la carte…

Alguns mapas são exercícios de provocação por excelência. Não é por acaso que eram (e ainda são) objectos de manipulação de propaganda política e até cientifica. Outros são apenas divertidos, exploradores dos preconceitos de uma nação ou país. Mas mesmo dentro desta última categoria, dos divertidos; não podemos deixar de reflectir se o cartógrafo estava mesmo interessado em fazer rir ou expor a frustração, a malvadez ou as assimetrias de um povo. E penso que é precisamente nestas três palavras que o mapa de Portugal apresentado encontra a sua legenda e escala.

DSC03724

Mapa de Portugal fotografado de um livro que já esqueci.

Antigas colónias que  descrevíamos como “nossas”, uns vizinhos que remetemos ao vazio, as assimetrias entre as grandes metrópoles e tudo o que resta. A divisão de Portugal em três regiões é +ara mim uma incógnita. A referência a Olivença um apêndice geográfico, ou seja, ninguém precisa dele mas é sempre uma operação que ninguém quer fazer. E que dizer dos Mouros remetidos a uma esquina de Marrocos? Colectivos de espadas em meia lua a subir por ai acima como se Lisboetas fossem! Mas afinal para quê um mapa. Não podia tudo isto ser descrito em palavras? Sim podia, mas convenhamos que não tinha metade da piada, ou quererei eu dizer provocação…

Standard