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Dois em um…

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O natal, dizem, é quando um homem quiser, mas em termos oficiais só quando o governo o proclama. Assim sendo, apesar de teoricamente todos os dias poderem ser natal, existem países onde simplesmente este nunca acontece, o mais a ocidente Mauritânia, o mais oriental Japão.  No deserto de dias natalícios figuram também grande parte do Norte de África e Médio Oriente. Na maioria dos países observa-se um só dia de natal por ano e pouco há a dizer sobre tal falta de originalidade. Bem mais interessante, porém, são os países onde se festeja o natal duas vezes por ano. Só cinco países fazem parte deste clube exclusivo; a Bielorrússia, a Moldávia, a Eritreia, o Líbano e, desde 2017 a Ucrânia. Não raramente as razões para a existência de dois dias de natal são religiosas. Em 2003 o Líbano torna-se um país bi-natalício, passando o dia 6 de Janeiro a figurar na lista de feriados públicos para alegria da minoria ortodoxa Arménia que lá habita. Na Eritreia o dia 25 de Dezembro co-existe com o 7 de Janeiro de modo a agradar a vários grupos cristãos católicos e ortodoxos. Já na Ucrânia, a adição de 25 de Dezembro como feriado público aparenta ter mais de manobra política e menos de reconhecimento aos 9% de católicos que lá vivem. Seja quais as razões, dois natais são sempre melhor que um, excepto quando são três…

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Toponímia Revolucionária

Na mais pobre das ex-repúblicas Soviéticas ergue-se uma curiosa toponímia revolucionária. Protegido pelo esquecimento, Lenine continua a falar mais alto por entre outras referências de um passado que se torna longínquo. Fala a 7000 metros de altitude, encravado entre o Quirguistão e o Tajiquistão e ombreado pelo mês que guarda  para sempre no coração. Não muito longe de si repousa Gorbudov, seu leal secretário que sonha um dia com duas assoalhadas em Moscovo, lá cima a 6700 metros.  Ao sul, às portas do Afeganistão, o pico a quem todos lhe devem a altura, Marx.

A curiosa toponímia do Tajiquistão tem tanto de romântica como de ingénua. Na URSS o alpinismo era visto como a personificação do socialismo onde a entreajuda de cada elemento da expedição era pré-condição necessária para atingir um “mais alto” objectivo comum. Mas ao chegarem ao topo o nome escolhido era muitas vezes o do indivíduo ou o evento singular. Na sua ingenuidade (movida pelo sonho, há que o dizer), os alpinistas acabavam por idolatrar o indivíduo e não o bem comum. Caso contrário os picos teriam nomes como Pico do Colectivo, da Liberdade, do Progresso.

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Mapas, Política

De Pyongyang para o Mundo…

O senhor foguete mora na rua Ryongsong Nr. 55 e diz ser capaz de encurtar distâncias a olhos vistos. Do pouco que se sabe sabe-se o suficiente para este provocar mau estar um pouco por todo o lado. Com base no tempo de voo e altitude reportada nos ensaio dos foguetes Hwasong-14 e Hwasong-15, estima-se que o alcance do seu indicador direito esteja na ordem dos 8000 a 13000km, o suficiente para incomodar 90% da população Mundial. A salvo de um potencial impacto directo só mesmo a América do Sul e o Cabo das Tormentas; a salvo das consequências praticamente ninguém.

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Cidades, Mapas

Funchal

De que vale um número? De que vale dizer que arderam cerca de 17km2 só nas imediações da cidade do Funchal, 1700 campos de futebol para os fervorosos adeptos dos números, mas será que alguém liga a futebol nos dias que correm? O melhor é visualizar a extensão da desgraça e as rondas que esta foi fazendo pelos meandros das casas e das vidas dos que lá moram. Um Funchal cercado pelos tons de vermelho e que dizem muito mais do que a frieza dos números.

Retirei a informação do sistema EMS do programa Copernicus.

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Cidades, Mapas

Estudos interiores (demografia)…

Que interior é esse de que falam? foi a questão que coloquei algum tempo atrás neste espaço. Uma pergunta que me proponho explorar numa série curta de posts. Comecemos:

Portugal é essencialmente um pais fino. Em linha recta distam pouco mais de 200km entre a costa e o município mais “interior” do país (Miranda do Douro). Na verdade, o ponto central de 80% dos municípios Portugueses encontra-se localizado a menos de 100km da costa. É  claro que as acessibilidades distorcem a linha recta, aumentando-a. Mas Portugal continua ser um país fino onde o “interior” está, geograficamente, bastante perto do litoral.

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Municípios de Portugal e distância à costa

 

Mas território não é só geografia, território é também as pessoas que nele vivem. O “interior” é tido como aquele onde apenas uma réstia da população vive, já que a zona costeira concentra a maioria das gentes. Assim sendo vamos lá definir onde fica a fronteira entre o “interior” e o resto de Portugal. Invocamos Pareto para nos ajudar. Definimos  como “não interior” a região onde viva 80% da população de Portugal o mais perto possível da costa, e “interior” a região onde vivem os restantes 20%.

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Percentagem da população Portuguesa vs distância à costa.

 

A fronteira entre o “interior” e o resto pode agora ser definida como a interceção da marca dos 80% de população com a distância à costa. O resultado mostra um Portugal “dividido” por uma fronteira interior que dista sensivelmente 45km da linha de costeira. Uma vez mais, e segundo esta definição, o início do”interior” está bastante perto do litoral.

Mas o território não é só a geografia e as pessoas que nele vivem, território é também a evolução no tempo. Segundo o aspecto temporal o “interior” é, tradicionalmente, aquele território que perde população, o território do abandono. Vamos então subtrair ao número de habitantes de cada município em 2001 o número de habitantes em 2014 e distribuir os resultados segundo a distância do município à costa.

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Variação da população entre 2001 e 2014, e a distância à costa dos municípios.

Em média, quanto mais afastado um município está da linha costeira maior é a probabilidade de este ter perdido população entre 2001 e 2014. No entanto, o fenómeno de abandono territorial é mais complexo. Por exemplo, o município do Porto tem vindo a registar uma perda de população (provavelmente para regiões vizinhas) enquanto que Vila Real regista um pequeno aumento da população. Praticamente toda a costa Alentejana perdeu população, enquanto que a costa Portuguesa a norte de Lisboa é um picotado de perdas e ganhos populacionais.  Caso o “interior” seja então definido como a região de abandono populacional reparamos que este se encontra espalhado por várias partes do território que não são, em regra, importantes centros urbanos.

A questão do “interior” não me parece pois uma divisão entre este ou aquele grupos de municípios ou distritos Portugueses, mas sim uma divisão entre o mundo rural e urbano. Neste caso, o município de Vila Real é para os municípios adjacentes o que Lisboa é para o resto de Portugal, litoral. O facto de haver pequenos “litorais” no interior é uma chatice porque força os políticos do interior a aceitar a má articulação que fizeram entre os centros urbanos e rurais dentro do tal “interior” que tanto se queixam. Como dizia (e penso que ainda diz) um docente meu nos tempos da Universidade, é tudo uma questão de escala.

 

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