Cidades, Lugares

A cidade dos desalinhados…

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O fim do dia chega e com ele o fim da viagem. É sempre uma tristeza, uma certa melancolia, é sempre apesar de ser apenas a segunda vez. O sentimento de que fica algo por concretizar é ainda maior do que há um ano. Tanta força que esta cidade nos dá e ao mesmo tempo tanta direcção nos tira. Um fenómeno exclusivo destas paragens?

Na cantina as pessoa abraçam o prato com a fadiga do dia que acaba. Ao mesmo tempo que o corpo descansa a cidade ganha vida. Tenho a impressão que Petersburgo está sempre à espera da noite, da penumbra que inunda os pátios, do silêncio que faz o rio soar mais alto. O dia aqui não é algo de útil mas sim apenas algo que se tolera. A verdadeira libertação da vida na cidade chega com a noite. Noite que não é imposta pela escuridão mas sim pelo adoptar de um certo estado de espírito por parte da população, sempre a horas diferentes, sempre à hora certa.

Nada me resta fazer a não ser partir desta cidade a que não pertenço mas podia, uma vez que a cidade é toda ela composta por desalinhados. Desalinhados de pensamento, de hábitos, de possessões; enfim, de tudo aquilo que vulgarmente usamos como medida de vida. Sabendo de antemão do meu erro atrevo uma generalização. Penso que toda a  vida em Petersburgo sem faz entre duas forças; entre o desalinhamento natural de quem lá vive e a tentativa vã de copiar o resto do mundo. Enquanto subsistir esse desalinhamento vale a pena cá voltar. Voltar para lembrar aquilo que não somos e assim poder espreitar tudo aquilo que podemos vir a ser.

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Cidades, Lugares

Gustav…

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É ele que anuncia a primavera e dá por terminado o Verão. Qual andorinha! O Gustav soa muito mais alto que qualquer pardal tonto e dita o rodar das estações em Potsdam. É a vapor mas entende muito bem a liquidez do meio onde se move, das suas quase ondas, do seu azul de fotografia, enfim, do seu sustento. Mais do que um barco é ao mesmo tempo actor e personagem, quase humano só que metálico, quase esquecido e ao mesmo tempo amado, quase a tempo, quase depressa, quase a partir. Mais sol houvesse mais ele nadaria, sempre rumo à ponte e de volta, porque a idade já é muita e o carvão esmorece depressa. É o Gustav de sempre que já viu partir outros bem mais novos que eles, aqueles com GPS pr’ó capitão tonto e UAIFAI para os passageiros tristes. Só o Inverno o derruba, esse adversário formidável. Não por ser frio, mas por levar para longe as crianças. Regressam à escola, não puxam a corda, o apito não soa e o Gustav não sorri. Voltará no próximo ano, sorridente, sempre em frente, a todo o vapor…

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Lugares, Política

A verdadeira face das sanções…

Passados quatro anos de sanções económicas e política à Rússia, importa escrutinar as implicações do caminho escolhido para castigar a anexação da Crimeia e a desestabilização do Leste da Ucrânia.

Ponto de situação: O conflito na Ucrânia permanece congelado e longe dos olhares mediáticos dos jornais. A Crimeia permanece sobre administração Russa sem que seja visível qualquer descontentamento para impor uma reversão da soberania. A tão anunciada segregação da comunidade Tártara ou não aconteceu ou se aconteceu ninguém deu por isso. No plano Mundial a Rússia parece ter-se tornado a nova potência informática dada aparente facilidade com que se intromete nos resultados de eleições de países muito mais desenvolvidos.  Tal parece ter sido o caso nos Estados Unidos. Macron também seu a entender que En Marche sofreu ataques Russos e até a Alemanha está redobrar esforços para proteger as eleições de Setembro de piratas Moscovitas.

Na síria a Rússia continua a defender a permanência no poder de Assad e, se quiser, bombardeia como lhe apetece. Finalmente, o grande culpado de tudo, Vladimir Vladimirovich Putin, continua a desfrutar de um imenso apoio popular. Se alguma esperança havia de vergar a população pela via económica a mudar de líder, tal parece não estar a resultar.

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Babuskas a vender legumes perto da estação de Lomonosovskaya. O mercado informal cresceu desde 2014 como forma de compensar a perda de poder de compra. 

Se no plano político tudo permanece quase igual, ou ligeiramente pior, à situação vivida em Março de 2014, onde podem ser vistas as verdadeiras consequências das sanções? Estas podem ser observadas no local onde nenhum político que as sugeriu se atreve a ir; às ruas e às casas das pessoas comuns. Basta um número de entre tantos possíveis para  cristalizar de forma fria a nova realidade do Russo comum. Em 2015 a Rússia viu crescer em 3 novos milhões o número de pobres (rendimento diário inferior a 5 Euros). Um ano, três milhões de novos pobres.  Esta é a verdadeira face das sanções. Pessoas empurradas para a destituição por capricho daqueles que pensam saber fazer diplomacia. Pessoas que não têm culpa alguma nos desígnios política Russa. Admitir que a culpa das sanções é no fundo dos que elegeram um líder expansionista implica reconhecer que o povo Russo tem um sistema democrático livre! Algo que simplesmente não é verdade.

Como adiro ao principio de Russell de que “não deve existir nada merecedor de consideração por parte de um político a não ser o melhorar da vida do cidadão”, as sanções económicas impostas à Rússia são um fracasso.

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Cozinha, Lugares

Piramidal…

Veio hoje a saudade de uma piramide como aquelas que tantas vezes comi na Gomes. O resultado é uma aproximação à escala 1 para quase lá. Mas o que conta é a magia de as comer e não a equação que as produziu. Não dá para matar, as saudades claro está, mas serve para manter a tristeza na cova até que outro, desejo pois bem, se levante. Hoje tudo é piramidal…

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Cidades, Lugares

Páscoa farta…

Em busca do resto que é tudo. O sustento do dia, o desperdício que vale vida. Uma cadeia alimentar distorcida na qual só a presa mantém o seu papel. São bandos de bandidos efémeros, aliados de ocasião, ladrões do mar. O barco alimenta-os por descuido e alegria. Afinal de contas também merecem Páscoa farta.

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Unterwarnow

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Cidades, Lugares

Uma dentada em Marx…

As grandes batalhas ideológicas encontram a sua expressão mais visível nos lugares comuns; nas praças de uma cidade, no boletim de voto, na esquina de um edifício.

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Em Potsdam a mais recente batalha pela supremacia ideológica do lugar comum trava-se na esquina de um mural cósmico socialista (texto à direita no muro). Nesta trincheira urbana Marx vai perdendo contra a igreja a luta que iniciou, imagine-se, há quase 170 anos.

O apetite da cidade pelo falso barroco e  pelo falso clássico vão apagando os rastos do influente filósofo. Em pleno século XXI o mural de ode comunista está a ser ameaçado com a reconstrução de uma igreja que por lá havia e que os bombardeamentos de abril de 45 levaram. Quer se goste ou não do pensador económico, Potsdam está em vias de cometer um grande erro; o de não preservar a história nas suas facetas mais variadas de modo a entender toda a amplitude do caminho traçado pelo tempo.

Mas o maior absurdo de toda esta situação não é a dentada  em Marx, mas sim o hálito obscuro que emana da boca de que a dá.  A 21 de Março de 1933, em frente à igreja que agora querem levantar, um tal de senhor H recebe de Hindenberg (então presidente do parlamento Alemão) a bênção para “reconstruir a nação”. Uma vez tomado o parlamento o resto é história. Este momento fulcral da história moderna aconteceu em Potsdam e ficaria para sempre associado à igreja diante da qual foi celebrado.

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Na sua eterna sabedoria a igreja protestante aclama, e bem, que o novo edifício será um local de perdão entre povos, de reconciliação e meditação. De acordo! Se assim é, não é preciso construir a igreja pedra por pedra, tal e qual ela era em 1933. Que se pague 1 bazilião de Euros ao melhor melhor arquitecto Alemão para projectar um edifício com os olhos postos no futuro, minimalista, suspenso com cordas de titânio e telhado de vidro para se poder ver os céus e tudo o que isso comporta. Um edifício rodeado de árvores trazidas da terra santa, ou de outra que bem entenderem, e que do meio das quais jorrem fontes de luz e bolas de sabão. Quando confrontada com esta visão arquitetónica do paraíso a igreja diz … não, deixando claro que não se trata somente de erigir um “centro para a conciliação”, interessa isso sim todo o simbolismo do edifício.

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Com os outdoors já de fora e o alvará a escassos meses, nada indica que o mural de Marx sobreviva a mais um ano. Parece que à luz da construção civil só existem duas opções, fazer A ou fazer B. Deixar a história simplesmente  fluir, ou seja, deixar o mural esmorecer e fazer da igreja uma abstracção, não está em cima da mesa.

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Lugares, Untitled

O Junqueira…

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Dumskaya nrº 7

O Junqueira encosta a alma
Na parede que o sustenta
O frio da escuridão
Baila na sua marcha lenta.

Chegado a casa treme mas não de frio
Pelo corpo que jaz no fundo do rio.
Junqueira ninguém te viu.

O Junqueira não tem medo
Da justiça que é terrena
E a outra que se diz divina
Sabe não valer a pena.

A porta abre e uma sombra cai dentro de si
Corre como quem foge de Nagasaki.
O Junqueira não mora aqui.

O Junqueira diz que não,
O tiro era mesmo para seu irmão!
Que de forma quase abençoada
Maltratava esposa, filha e sogra amada.

É a aritmética de um pecador sem jejum
Para baixar o mal do Mundo comum,
Dantes sofriam três, agora sofre um.

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