Cozinha

O embaixador de arroz…

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Pequeno em condição mas grande no seu alcance geográfico. Embaixador da Portugalidade doce, que é como quem diz, do minimalismo de ingredientes e composição. Pode ser visto como o parente pobre do outro embaixador mais pomposo e  de personalidade dupla, crocante e cremosa; a nata. Mas o facto de ser pobre não o impede de ser rico no que interessa, em sabor. Se outros há que andam espalhados por esse Mundo, poucos se podem gabar de lhe terem dado a volta; de Moçambique a São Tomé por imposição, depois Goa e Malacca por contraste; até ao Japão por perfeccionismo e por fim Brasil em extravagância. Tal como o bom filho que a casa torna, não se deixa levar pelas modas do Mundo. Volta como partiu, com as mesmas vestes de papel translúcido e o mesmo chapéu  de açúcar.

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Cozinha, Lugares

Piramidal…

Veio hoje a saudade de uma piramide como aquelas que tantas vezes comi na Gomes. O resultado é uma aproximação à escala 1 para quase lá. Mas o que conta é a magia de as comer e não a equação que as produziu. Não dá para matar, as saudades claro está, mas serve para manter a tristeza na cova até que outro, desejo pois bem, se levante. Hoje tudo é piramidal…

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Cozinha, Outros, Uncategorized

Ressurreição…

…e ao terceiro dia acordaram do seu sono de lata para se tornarem deusas efémeras da delícia.

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Onde estamos? Perguntam as quatro… Quem disse nos fala? Quem está ai!?

Eu, o criador! Criador da substância que vos sustenta, do calor que vos faz crescer, da bênção caramelizada que em vossas almas derrama.

E quem somos nós?

Vocês são fruto do trabalho da vida, fruto da terra e do espaço, colhidas pelo homem e preservadas pela sua indústria.

Não somos deusas?

Não… apenas fruto, tecnicamente, fatias dele.

Não somos únicas?

Não… apenas cópias uma da outra. O que a bem dizer não é problema uma vez que nós gostamos de vocês tal e qual como vocês são.

Nós? Existe mais do que um criador então?

Sim, existe, tantos que nem é possível contar. Em maior número que as estrelas e que todos os grãos de areia do mundo.

Algo está errado com esta vida após a morte. Prometeram-nos um assento à direita do nosso criador.

Não… está tudo certo porque está tudo como deve ser. A vossa vida é só de passagem e a vossa verdadeira ressurreição ainda está para vir… não à direita mas dentro, dentro de mim e de outros que vos queiram… poucos espero…

Dentro? Como assim…

Chama-se digestão, a única ressurreição possível, vossa e minha…

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Cozinha

Haja clássico…

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O mundo é composto por mudança mas por vezes as melhores coisas são aquelas que não mudam, ou melhor, que mudam pouco. Há um apego especial às coisas que mudam pouco num mundo em que existe pouco tempo para processar as coisa tais como elas são.  E por isso vamos amando o nostálgico, não propriamente o antigo,  mas daquilo que recordamos ser de um tempo que não volta. Um clássico é mesmo isso, um recordar como era, como foi e como gostaríamos que sempre fosse (nem sei se tal faz sentido gramaticalmente, mas fica a ideia). Um clássico é a justaposição de duas entidades separadas por uma trincheira. Não trincheira de guerra, não aquela que separa mas aquela que aglutina, aquela de cacau. Um clássico é uma cobertura com manteiga farta e condensado de leite quanto basta, ou seja, sempre um pouco mais do que o livro diz. E não são os livros para isso mesmo, para deles fazermos uma coisa ainda melhor!? Um clássico é o uso de ovos, porque o ovo é tão fundamental para a doçaria Portuguesa como o Nicola para os versos de Bocage. Poderia “Besta e mais besta! O positivo é nada…” alguma vez ser concebido num salão de chá?! Por mais aproximações infinitesimais de linhaça que se inventem – com as quais por vezes brinco, confesso –  um ovo será sempre um ovo, fundamental até sua forma, até na sua arte de questionar afinal o que veio primeiro? E tudo isto por causa de um clássico, bem haja! Boa noite…

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Cozinha, Rimas

De manhã ouro…

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Bolo de laranja…

De manhã ouro, à noite mata,
Mas sabes que na prática
Não é bem assim.

O real assassino
Vem sem hora marcada,
Açúcar de facada em facada
Hoje um pouco mais
Ontem assim assim.

Mas que descaramento!
Da vitamina não há melhor remédio.
Não merece pois o sacarídeo
Equivalente provérbio,
Parecer médico,
Popular assédio?

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Cozinha, insólito

Outono absurdo…

Entre a floresta e a água, o sol e a chuva, o dentro e o fora, desenrola-se o Outono. Ora de mãos gélidas a resgatar fungos de um solo malicioso, ora de dedos escaldados com a abobora líquida que tenta escapar da sua prisão de vidro. Outra vez Outono pensa ela, outra vez enfrascada! Dos restos laranja que ainda fumegam faz-se um bolo cujo mármore é conferido pela amêndoa, rebelde fora de época, traidora das estações só porque é seca, e por isso inerte, quase morta.

Demasiado quente nesta casa, queremos é cheiro de rua e abraços de vento. Queremos também a desilusão de não os encontrar e de verificar afinal o sol ainda acompanha as pessoas. Não só as acompanha das presentei-as com algo raro: dois arco-íris que se afogam no mar. Ou será que são dois arco-íris que do mar se elevam para as alturas de um céu sem fim. Seja como for é Outono, uma estação absurda onde nada deve ser levado muito a sério, a não o ser quando chegar o senhor Inverno. Mas sobre esse falaremos noutro dia…

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