Ciência, Lugares

Rokot e Sentinela…

A política é muitas vezes inibidora do progresso científico, algo que por si só devia ser considerado crime.  Contrariando a lógica infantil dos líderes Europeus, Americanos e Russos, é bom ver exemplos concretos da clarividência da ciência neste período de cegueira política.

Quase sem ninguém notar foi lançado no dia 13 de Outubro do cosmódromo de Plesetsk um discreto Rokot com o Sentinel 5-P a bordo. O pequeno satélite tem a missão principal de monitorizar a química da atmosfera até o seu irmão maior, Sentinel 5, chegar ao espaço lá para 2021. A missão recorda o potencial, infelizmente latente, que a EU e a Rússia podem ter na observação terrestre. Se em vez de andarem a brincar aos diplomatas deixassem mas é as pessoas anónimas (sim, aquelas que suportam a maquinaria da economia, arte e ciência a funcionar) trabalhar à vontade muito mais poderia ser atingido. Que esta pequena missão conjunta entre a EU e Rússia nos sirva de exemplo do caminho a seguir.

 

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Ciência

Solar e nuclear empatadas; mas só uma continua a correr…

Repetidamente escutamos que existem duas grandes desvantagens da energia solar em relação à energia ditas convencional. As duas desvantagens são a sua intermitência e o preço por unidade de energia produzida. Se quanto ao primeiro a luta continua para encontrar solução adequada, já quanto ao segundo as leis do progresso tecnológico parecem estar a erodir o argumento a passos largos.

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Traduzido da figura 1 em Farmer e Lafond 2016.

Trabalho recente de Farmer e Lafond compara o preço por unidade de energia eléctrica proveniente de três tecnologias tão distintas como carvão, nuclear e solar. Quando ajustada de acordo com a inflação o custo de carvão (linha sólida negra) para geração eléctrica nos Estados unidos não denuncia nenhuma tendência significativa, ou seja, o progresso tecnológico não parece ter influenciado o custo ao qual a energia é produzida via ganhos de eficiência por exemplo. O mesmo exercício para o custo de electricidade de centrais nucleares nos Estados Unidos aumentou entre duas e três vezes (notem que a escala é logarítmica) entre 1956 e 1998 (triângulos vermelhos). Ao contrario de outras alternativas os custos operacionais das estações nucleares disparam com a idade, já para não falar dos elevados custos de tratamento de resíduos.

O preço acordado (estimado) a ser pago à estação nuclear de Hinkley Point no Reino Unido  (cruz vermelho) for kWh quando começar a funcionar em 2023 é igual àquele pago hoje em dia a centrais com mais de 20 anos de idade! É pois fácil de constatar que ninguém aposta num notável progresso tecnológico na área nuclear. de outro modo a estimativa do preço seria diferente.

Finalmente a evolução do preço pago por unidade energética proveniente de módulos fotovoltaicos tem vindo a cair a uma taxa de 10% ao ano deste 1980 (círculos e linha de tendência verdes). Das três tecnologias avaliadas a energia solar parece ser a única que mostra um claro efeito positivo da evolução tecnológica. O preço actual da energia solar nos Estados unidos é competitivo em relação ao preço acordado a uma central nuclear que ainda nem começou a funcionar! Veja-se a proximidade dos círculos verdes ao preço acordado para Hinkley Point. As tecnologias estão pois aparentemente empatadas em termos de custos, mas só uma continua a correr no sentido desejável.

Se a tendência de corrida mantiver, até o preço do carvão será posto em causa. Os autores estimam que em 2030 o custo de produção da solar será de apenas 0.14$/Wp, muito perto do que é pago às centrais a carvão no Estados Unidos hoje em dia (cerca de 0.03 no equivalente em $/kWh). Quando o sol brilha, já não é desculpa evocar o custo da energia solar como um empecilho para a transformação energética da nossa sociedade.

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