Cidades, Lugares

FH…

Quando aqui cheguei existiam lugares que sabia pertencerem a outro tempo. Deixados ao abandono acabaram por perder a cor e a utilidade. Hoje vistos como empecilhos arquitectónicos foram sistematicamente eliminados da paisagem que se quer barroca.

O triunfo do “artificionalismo” nesta cidade é galopante. Todos os dias erguem-se ruas históricas, igrejas manchadas de sangue e fachadas do século 18 com materiais e técnicas do 21. Pior ainda; festeja-se a inauguração como se de uma maravilha da técnica(!) se tratasse. Na minha ingenuidade confesso não perceber de arquitectura mas uma coisa parece-me tão fundamental que não é preciso ser nehum I. M. Pei para perceber; uma cidade só o é se existir heterogeneidade de espaços e usos. Se querem uniformismo então que se mudem para o deserto ou para o campo que está aqui tão perto, repleto de plantações de girassol a perder de vista e que, imaginem só, giram todos no mesmo sentido. Assim se está a tornar Potsdam, um campo de girassol barroco, todos iguais na sua diferença!

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A destruição do velho edifício da FH (algo como o politécnico de Potsdam que agora opera em novas instalações fora do centro da cidade) é só mais um passo para acabar com o que resta da um tempo que a cidade ou quer esquecer ou não sabe preservar. Nem 15 mil assinaturas foram suficientes para parar um processo que estava condenado ao sucesso. Mais do que uma requalificação urbana, a perda da FH é no meu ponto de vista uma fuga em frente. É o admitir que edifícios (em pé) de uma certa época são uma cicatriz com a qual não se saber viver. A favor da estética opera-se; não para remover da a dor e sarar a ferida, mas sim para retocar a cicatriz ao nível mais vulgar do que existe lá para os lados de Hollywood.

Num povo que tanto privilegia o compromisso e a racionalidade, neste aspecto em particular a política urbana em Potsdam reflecte uma pobreza que não julgava ser compatível com espírito Germânico. Esperava muito mais… Salva-se a iniciativa popular de protesto (também ela característica deste povo) até a última retro-escavadora abandonar o local do crime, até a última pedra tombar e com ela a possibilidade de gerações futuras poderem usufruir de uma cidade contínua no tempo.

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Cidades, Lugares

A cidade dos desalinhados…

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O fim do dia chega e com ele o fim da viagem. É sempre uma tristeza, uma certa melancolia, é sempre apesar de ser apenas a segunda vez. O sentimento de que fica algo por concretizar é ainda maior do que há um ano. Tanta força que esta cidade nos dá e ao mesmo tempo tanta direcção nos tira. Um fenómeno exclusivo destas paragens?

Na cantina as pessoa abraçam o prato com a fadiga do dia que acaba. Ao mesmo tempo que o corpo descansa a cidade ganha vida. Tenho a impressão que Petersburgo está sempre à espera da noite, da penumbra que inunda os pátios, do silêncio que faz o rio soar mais alto. O dia aqui não é algo de útil mas sim apenas algo que se tolera. A verdadeira libertação da vida na cidade chega com a noite. Noite que não é imposta pela escuridão mas sim pelo adoptar de um certo estado de espírito por parte da população, sempre a horas diferentes, sempre à hora certa.

Nada me resta fazer a não ser partir desta cidade a que não pertenço mas podia, uma vez que a cidade é toda ela composta por desalinhados. Desalinhados de pensamento, de hábitos, de possessões; enfim, de tudo aquilo que vulgarmente usamos como medida de vida. Sabendo de antemão do meu erro atrevo uma generalização. Penso que toda a  vida em Petersburgo sem faz entre duas forças; entre o desalinhamento natural de quem lá vive e a tentativa vã de copiar o resto do mundo. Enquanto subsistir esse desalinhamento vale a pena cá voltar. Voltar para lembrar aquilo que não somos e assim poder espreitar tudo aquilo que podemos vir a ser.

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Cidades, Lugares

Gustav…

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É ele que anuncia a primavera e dá por terminado o Verão. Qual andorinha! O Gustav soa muito mais alto que qualquer pardal tonto e dita o rodar das estações em Potsdam. É a vapor mas entende muito bem a liquidez do meio onde se move, das suas quase ondas, do seu azul de fotografia, enfim, do seu sustento. Mais do que um barco é ao mesmo tempo actor e personagem, quase humano só que metálico, quase esquecido e ao mesmo tempo amado, quase a tempo, quase depressa, quase a partir. Mais sol houvesse mais ele nadaria, sempre rumo à ponte e de volta, porque a idade já é muita e o carvão esmorece depressa. É o Gustav de sempre que já viu partir outros bem mais novos que eles, aqueles com GPS pr’ó capitão tonto e UAIFAI para os passageiros tristes. Só o Inverno o derruba, esse adversário formidável. Não por ser frio, mas por levar para longe as crianças. Regressam à escola, não puxam a corda, o apito não soa e o Gustav não sorri. Voltará no próximo ano, sorridente, sempre em frente, a todo o vapor…

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Cidades, Lugares

Páscoa farta…

Em busca do resto que é tudo. O sustento do dia, o desperdício que vale vida. Uma cadeia alimentar distorcida na qual só a presa mantém o seu papel. São bandos de bandidos efémeros, aliados de ocasião, ladrões do mar. O barco alimenta-os por descuido e alegria. Afinal de contas também merecem Páscoa farta.

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Unterwarnow

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Cidades, insólito

Rugas necessárias…

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“Capitalismo é estúpido”

São mais do que palavras escritas na parede que se esmigalha. É mais do que a impureza da fachada com nódoas de graffiti. É mais que o som punk metálico filtrado da cave. É mais que o azul giratório da visita policial. É a variedade da diferença, ou seja, a precondição para a sobrevivência da uma sociedade justa.

Poderia eu viver em tal espaço? Não. Partilho eu de todos os ideais que por lá se interiorizam e vivem? Não. Adoro a estética turva das paredes? Não. Constituem estas razões para que deseje a sua destruição? Não! Quero que esta casa e todas as outras como ela sobrevivam pelo simples e fundamental facto que são elas o último bastião da heterogeneidade. A perda destas casas “ocupadas” é uma perda automática na variedade da cidade e por consequência na sua capacidade em discutir. Do ponto de vista pessoal, a sua perda seria um ataque à minha liberdade de lá poder entrar, de lá poder argumentar e de lá poder ouvir um concerto sem ter que pagar entrada.

Na sua busca pela pureza estética do prédio-fachada, os urbanistas e arquitectos vão empurrando a cidade para o seu pior destino, a beleza, a ausência da mais pequena ruga, o apagar da imperfeição. Os únicos traços de carácter numa face que se torna assustadoramente comum.

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insólito, Cidades, Automóveis

Uma questão de escala…

Diz lá? É que daqui de cima não te oiço muito bem. Importas-te de repetir? Percebi… sentes-te incomodado pelo meu porte desajeitado, o meu rolar retumbante, enfim,  por ser diferente. É isso? Tem calma meu amigo, é tudo uma questão de escala. Não tenho culpa que tenhas sido criado a 1:15. Olha… se é que te serve de consolo; eu não posso ir a muitos locais que tu podes e não é por isso que me queixo das ruas serem estreitas! Vá… anda lá para a frente. Não vês que o sinal está verde? É que eu não tenho compostura parado!

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Kiel 2016

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Cidades, Lugares

Uma dentada em Marx…

As grandes batalhas ideológicas encontram a sua expressão mais visível nos lugares comuns; nas praças de uma cidade, no boletim de voto, na esquina de um edifício.

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Em Potsdam a mais recente batalha pela supremacia ideológica do lugar comum trava-se na esquina de um mural cósmico socialista (texto à direita no muro). Nesta trincheira urbana Marx vai perdendo contra a igreja a luta que iniciou, imagine-se, há quase 170 anos.

O apetite da cidade pelo falso barroco e  pelo falso clássico vão apagando os rastos do influente filósofo. Em pleno século XXI o mural de ode comunista está a ser ameaçado com a reconstrução de uma igreja que por lá havia e que os bombardeamentos de abril de 45 levaram. Quer se goste ou não do pensador económico, Potsdam está em vias de cometer um grande erro; o de não preservar a história nas suas facetas mais variadas de modo a entender toda a amplitude do caminho traçado pelo tempo.

Mas o maior absurdo de toda esta situação não é a dentada  em Marx, mas sim o hálito obscuro que emana da boca de que a dá.  A 21 de Março de 1933, em frente à igreja que agora querem levantar, um tal de senhor H recebe de Hindenberg (então presidente do parlamento Alemão) a bênção para “reconstruir a nação”. Uma vez tomado o parlamento o resto é história. Este momento fulcral da história moderna aconteceu em Potsdam e ficaria para sempre associado à igreja diante da qual foi celebrado.

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Na sua eterna sabedoria a igreja protestante aclama, e bem, que o novo edifício será um local de perdão entre povos, de reconciliação e meditação. De acordo! Se assim é, não é preciso construir a igreja pedra por pedra, tal e qual ela era em 1933. Que se pague 1 bazilião de Euros ao melhor melhor arquitecto Alemão para projectar um edifício com os olhos postos no futuro, minimalista, suspenso com cordas de titânio e telhado de vidro para se poder ver os céus e tudo o que isso comporta. Um edifício rodeado de árvores trazidas da terra santa, ou de outra que bem entenderem, e que do meio das quais jorrem fontes de luz e bolas de sabão. Quando confrontada com esta visão arquitetónica do paraíso a igreja diz … não, deixando claro que não se trata somente de erigir um “centro para a conciliação”, interessa isso sim todo o simbolismo do edifício.

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Com os outdoors já de fora e o alvará a escassos meses, nada indica que o mural de Marx sobreviva a mais um ano. Parece que à luz da construção civil só existem duas opções, fazer A ou fazer B. Deixar a história simplesmente  fluir, ou seja, deixar o mural esmorecer e fazer da igreja uma abstracção, não está em cima da mesa.

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