Cidades, Lugares

Uma dentada em Marx…

As grandes batalhas ideológicas encontram a sua expressão mais visível nos lugares comuns; nas praças de uma cidade, no boletim de voto, na esquina de um edifício.

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Em Potsdam a mais recente batalha pela supremacia ideológica do lugar comum trava-se na esquina de um mural cósmico socialista (texto à direita no muro). Nesta trincheira urbana Marx vai perdendo contra a igreja a luta que iniciou, imagine-se, há quase 170 anos.

O apetite da cidade pelo falso barroco e  pelo falso clássico vão apagando os rastos do influente filósofo. Em pleno século XXI o mural de ode comunista está a ser ameaçado com a reconstrução de uma igreja que por lá havia e que os bombardeamentos de abril de 45 levaram. Quer se goste ou não do pensador económico, Potsdam está em vias de cometer um grande erro; o de não preservar a história nas suas facetas mais variadas de modo a entender toda a amplitude do caminho traçado pelo tempo.

Mas o maior absurdo de toda esta situação não é a dentada  em Marx, mas sim o hálito obscuro que emana da boca de que a dá.  A 21 de Março de 1933, em frente à igreja que agora querem levantar, um tal de senhor H recebe de Hindenberg (então presidente do parlamento Alemão) a bênção para “reconstruir a nação”. Uma vez tomado o parlamento o resto é história. Este momento fulcral da história moderna aconteceu em Potsdam e ficaria para sempre associado à igreja diante da qual foi celebrado.

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Na sua eterna sabedoria a igreja protestante aclama, e bem, que o novo edifício será um local de perdão entre povos, de reconciliação e meditação. De acordo! Se assim é, não é preciso construir a igreja pedra por pedra, tal e qual ela era em 1933. Que se pague 1 bazilião de Euros ao melhor melhor arquitecto Alemão para projectar um edifício com os olhos postos no futuro, minimalista, suspenso com cordas de titânio e telhado de vidro para se poder ver os céus e tudo o que isso comporta. Um edifício rodeado de árvores trazidas da terra santa, ou de outra que bem entenderem, e que do meio das quais jorrem fontes de luz e bolas de sabão. Quando confrontada com esta visão arquitetónica do paraíso a igreja diz … não, deixando claro que não se trata somente de erigir um “centro para a conciliação”, interessa isso sim todo o simbolismo do edifício.

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Com os outdoors já de fora e o alvará a escassos meses, nada indica que o mural de Marx sobreviva a mais um ano. Parece que à luz da construção civil só existem duas opções, fazer A ou fazer B. Deixar a história simplesmente  fluir, ou seja, deixar o mural esmorecer e fazer da igreja uma abstracção, não está em cima da mesa.

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