Outros

São fantasmas…

Resta-nos a lembrança do cheiro da erva a decair em palha, o recordar do som metralha dos pardais em fúria e a luz de então agora filtrada a zeros e uns num monitor presente. São fantasmas enamorados com o passar do tempo, objectos de tons ferrugem que o sol queima. São momentos analógicos capturados com artimanhas digitais para mais tarde provocarem sensações à prova de qualquer tecnologia. São memórias de um Outono que parecia perene, mas que acabou por sucumbir ao inevitável. São fantasmas, são fotografias, são equivalentes.

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Nocturno a pedal..

Não raras vezes saio de casa para uma  curta ronda nocturna pela cidade antes de adormecer. Por vezes sigo a pé, outras vezes de bicicleta. Em geral sigo o rio, em sentido contrário, em sentido ao início. Quando posso tento assustar os gatos que sonâmbulos de orgulho fingem não ver a luz trémula do velocípede nem escutar a percussão do pneumático. Confiam nos reflexos de ginasta olímpico para se esquivarem no último segundo, sempre orgulhosos, mas cheios de susto no pelo.

Nunca regresso pelo mesmo caminho que me levou para fora de casa, nunca parto com um destino fixo no volante. Sigo “zagzeando” as ruas ao encontro do próximo sinal vermelho, de uma curva mais apetecível que aquela que ficou para trás, de uma resposta à pergunta de escolha múltipla que nos atormenta o sono; vocês sabem, aquela cuja as possíveis respostas nos parecem todas plausíveis, gémeas falsas mas mesmo assim indistintas.

Não fosse a barricada do sono e da responsabilidade e poderia seguir pedalando a ruas pela noite dentro. Não faz sentido, claro. Mas não faz mal acariciar a possibilidade. Afinal de contas não é para isso que a noite serve? Para se acariciar possibilidades?

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Cidades

No silêncio…

Num regresso a casa igual a tantos outros vagueava na paisagem um silêncio pouco comum. A cidade dormia, apesar de ainda não terem soado as doze. A margem, deserta de todos os passos, tinha somente sombras tímidas e vazias para contemplar. Só o telintar oco dos ramos nus perturbavam a rigidez do silêncio noturno que não é costume acontecer ali. Ali onde o teatro flutua até ao rio, onde o jazz se prolonga noite dentro e onde que é jovem  dança desmesuradamente, mesmo não sabendo como. Mas não hoje. Ou melhor, ontem. Ontem era a divisão luz e não a multiplicação do som quem acariciava a margem que nos leva para a cama. E que luz, e que divisão. A primeira da responsabilidade da lua, a segunda o resultado da total ignorância da água. Assim dorme Potsdam…

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Preço de fábrica…

Em Russo podstakannik (Pod = debaixo, Stakan = copo) traduz-se literalmente como “a coisa debaixo do copo”. É um objecto fundamental da cultura Russa. Adornado ao expoente Eslavo, ou seja, quase barroco, assume-se com oa forma mais requintada de se tomar a bebida nacional do país. Sim, essa mesmo… chá. É também graças ao podstakannik que as viagens intermináveis de comboio nocturno ganham um calor e sobretudo estabilidade fundamental. Além do mais, não deve haver peça de literatura clássica Russa cuja mão não tenha tocado o seu níquel quente.

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De algum modo fiquei fascinado com o curioso objecto e decidi correr os antiquários de Petersburgo na busca de um a apreço razoável. Alguns, em especial os comemorativos, atingem preços proibidos, pelo menos para mim. Tive o prazer de segurar um podstakannik de 58 ou 59 e comemorativo do lançamento do Sputnik que custava a módica quantia de 10000p, cerca de 142€. Depois de vários caso perdidos encontrei um podstakannik dito “vulgaris” de 1970 e por isso de preço mais aceitável.

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A seguinte pergunta começou a rondar a minha cabeça. Quanto custaria o podstakannik em 1970, numa economia onde o preço não reflectia o valor de mercado nem os custos de produção? Melhor ainda, quanto custava o mesmo podstakannik com o qual agora subia as escadas para o meu quarto. Para minha grande surpresa a resposta veio mais depressa do que poderia esperar. Gravado no fundo do podstakannik figuravam as iniciais da fábrica e à direita destas o preço original de 1970! Vim a saber que era prática comum as fábricas gravarem o preço de alguns produtos de modo a ser impossível a fixação posterior de um outro preço para venda ao público. No caso do meu podstakannik o preço em 1970 era de 2.59p. Como referência, o salário médio em 1964 era de 96p por semana. Infelizmente só encontrei dados de inflação para o Rublo de 1992 em diante, pelo que não me foi possível actualizar o seu valor para os dias de hoje.

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Cidades

Frankfurt, o outro…

Nas margens do rio Oder dorme um Frankfurt que poucos conhecem. Dorme com a cabeça voltada para Berlim e com os pés para  a Polónia. Até mesmo entre os nativos deste país há quem o ignore, preferindo o seu primo mais famoso, aquele que todos conhecem, o tal que dita as taxas de juro. Desconhecem que por lá estudou Bach, que a cidade já foi parte da liga Hanseática e que por lá foi fundada a primeira Universidade de Brandeburgo em 1506. Mas tudo isto é irrelevante quando no teu passado como cidade tens a RDA como patrona e um divórcio Polaco no registo civil.

Basta um atravessar de ponte para sermos transportados de um dos membros mais velhos da União Europeia para um dos mais novos. O Euro ainda não atravessou a ponte oficialmente mas jorra em boas torrentes da Alemanha para a Polónia, fruto do vício que são o tabaco e o consumo em lojas de conveniência. Em Słubice, a primeira cidade polaca, os pés de Frankfurt, a vida decorre caótica mas alegre. O futuro parece Zloty, ao mesmo tempo a sua moeda e literalmente  a palavra “dourado”. Toda a pequena loja  se chama Europa (claro que exagero mas são bastantes). Do cabeleireiro à pizzaria, todo o comércio tenta reclamar para si esse nome que se tornou sinónimo de prosperidade e de, sejamos também realistas, identidade de conveniência.

Vindo de um país que outrora olhou para a Europa, e morando num que a forjou e agora a abandona, não posso deixar de sentir familiaridade e melancolia com o sonho Europeu que penetra os olhos dos habitantes de Słubice. Faria bem a Frankfurt, este e ao outro, dormirem de cabeça voltada para  Słubice em vez dos pés, ou, no caso do outro, o dos juros, as costas.

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Frankfurt Oder visto da Polónia

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Universidade Viadrina

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Slubice ao fundo

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