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Estudos interiores (poder de compra)

Continuamos a nossa série de posts para desvendar esse interior empírico de que pouco se fala, talvez por conveniência, talvez por ignorância, talvez por ambas. Depois do olhar sobre as dimensões geográficas e de investimento, viramos agora as nossas atenções para as condições de vida das gentes do “interior”.

Iniciamos a nossa deriva analisando a relação entre o índice de poder de compra de cada município e a sua distância à costa – dados da PORDATA para os anos de 2009 (triângulos) e 2013 (círculos) (os anos mais recentes para os quais a PORDATA disponibiliza este índice). O índice é um indicador compósito que pretende traduzir o poder de compra em termos per capita. Para referência a média nacional do índice no respectivo ano é de 100 (linha horizontal a tracejado). As linhas a negro e cinza representam, respectivamente, a média do poder de compra dos municípios em intervalos regulares de 25 em 25km em 2013 e em 2009.

compra

Relação entre o índice de poder de compra e distância à costa dos municípios.

Podemos observar que à medida que nos afastamos do litoral o poder de compra médio dos municípios diminui. A diminuição não é linear. Entre os 5 e os 50km a redução é mais abrupta (de 110 para cerca de 75), estabilizando depois entre os 60 e 70 até Portugal se encontrar com Espanha. Notamos também que, embora mais “pobre”, o “interior” é menos desigual. Não que tal seja uma boa notícia, mas é uma constatação empírica. No “litoral” a diferença entre municípios mais “ricos” e os mais pobres pode chegar aos 140, enquanto que no “interior”a mesma diferença fica-se pelos 70.

Em termos relativos, de 2009 para 2013, parece ter ocorrido um aproximar do “interior” ao “litoral” no que ao índice de poder de compra diz respeito. A média de poder de compra no “litoral” variou de 90 para 95 entre 2009 e 2013; já a média do poder de compra no “interior” aumentou de 65 para 75. Tal traduz-se num “aproximar” de 7% entre o poder de compra do “interior” e o poder de compra do “litoral”. Tal poder ser observado pelo facto de a curva a negro (ano de 2013) se destacar acima da curva a cinza (ano de 2009) à medida que nos afastamos da costa. Como o índice é relativo, e a base de cálculo variável, é difícil dizer quais as razões deste aproximar. Das três uma: ou o “litoral” ficou mais pobre e o “interior” mais rico; ou o poder de compra cresceu mais no “interior” que a média nacional; ou o poder de compra desceu mais no “litoral” que no “interior”. No entanto, qualquer que seja a teoria, na prática o “litoral” e o “interior” ficaram mais próximos entre 2009 e 2013 no que ao poder de compra diz respeito. A realidade parece avançar em termos contrários àquilo que é proclamado pelo ad eternum discurso das “crescentes assimetrias regionais”. Podemos criticar que 7% é um aproximar tímido, concordo, mas é um aproximar, não é um divergir. E se o nosso ponto de partida for errado, que esperar então do ponto de chegada?

Os histogramas seguintes tentam sublinhar o meu ponto de vista. Eles mostram a diferença entre o índice de poder de compra em 2013 para o verificado em 2009. Barras a vermelho e azul escuro mostram o número de municípios em que a variação do poder de compra foi negativa durante os anos e os territórios em questão. Verificamos que no “litoral” houve uma proporção maior de municípios a perder poder de compra do que no “interior”. Podemos ver também que a magnitude das perdas em distritos do “litoral” pode chegar aos 30 pontos do índice enquanto que no interior as perdas ficam-se pelos 10 (já o máximo dos ganhos é semelhante em ambos os casos).

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Variação do poder de compra nos municípios entre 209 e 2013.

Com o litoral e o interior mais “juntos” no que ao poder de compra diz respeito, podemos dizer que Portugal era, em 2013, um país territorialmente menos desigual que em 2009. Pena é que a igualdade tenha sido provavelmente nivelada por baixo, ou seja, com um empobrecimento geral do país. No entanto, o “interior” parece ter sido mais resiliente que o “litoral” durante os anos investigados, algo que lhe permitiu um ganho relativo do poder de compra. Parece que a velha máxima de que os pobres ficam mais pobres e os ricos mais ricos não se aplica ao território nacional nos termos analisados neste blog.

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