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Minimal

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Queijo, ovos e baunilha, o resto dispenso. Base… que base. Bolacha? Não sei do que estás a falar. Vais para o forno assim mesmo. Gosto de ti assim, minimalista, livre de farinha, de fermento. Livre de pensares pelo teu próprio sabor e não pela tirania do açúcar. Como dizes… não levo açúcar? Blasfémia! Pouco me interessa o teu grito, 30min e isso passa. Queres ser um homenzinho e saltar para o sufoco ou tenho que te empurrar? Silêncio, finalmente. Tempo para olhar a janela e apreciar o minimalismo da manhã. Apreciar as pessoas inexistentes, os raios de sol tímidos, o gato mandrião a apalpar a madrugada. Toca o sino, o cadáver está pronto. Farda dourada, inchado e orgulhoso, mas, sobretudo, calado, nem um piu… Por seres bonzinho vou-te adornar. Sim, um pouco de extravagância… Toma lá, três framboesas ao peito a fazer de medalhas para general emproado. Não dizes nada? Mal agradecido! Humm…desculpa lá, esqueci que estás morto.

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Estudos interiores (poder de compra)

Continuamos a nossa série de posts para desvendar esse interior empírico de que pouco se fala, talvez por conveniência, talvez por ignorância, talvez por ambas. Depois do olhar sobre as dimensões geográficas e de investimento, viramos agora as nossas atenções para as condições de vida das gentes do “interior”.

Iniciamos a nossa deriva analisando a relação entre o índice de poder de compra de cada município e a sua distância à costa – dados da PORDATA para os anos de 2009 (triângulos) e 2013 (círculos) (os anos mais recentes para os quais a PORDATA disponibiliza este índice). O índice é um indicador compósito que pretende traduzir o poder de compra em termos per capita. Para referência a média nacional do índice no respectivo ano é de 100 (linha horizontal a tracejado). As linhas a negro e cinza representam, respectivamente, a média do poder de compra dos municípios em intervalos regulares de 25 em 25km em 2013 e em 2009.

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Relação entre o índice de poder de compra e distância à costa dos municípios.

Podemos observar que à medida que nos afastamos do litoral o poder de compra médio dos municípios diminui. A diminuição não é linear. Entre os 5 e os 50km a redução é mais abrupta (de 110 para cerca de 75), estabilizando depois entre os 60 e 70 até Portugal se encontrar com Espanha. Notamos também que, embora mais “pobre”, o “interior” é menos desigual. Não que tal seja uma boa notícia, mas é uma constatação empírica. No “litoral” a diferença entre municípios mais “ricos” e os mais pobres pode chegar aos 140, enquanto que no “interior”a mesma diferença fica-se pelos 70.

Em termos relativos, de 2009 para 2013, parece ter ocorrido um aproximar do “interior” ao “litoral” no que ao índice de poder de compra diz respeito. A média de poder de compra no “litoral” variou de 90 para 95 entre 2009 e 2013; já a média do poder de compra no “interior” aumentou de 65 para 75. Tal traduz-se num “aproximar” de 7% entre o poder de compra do “interior” e o poder de compra do “litoral”. Tal poder ser observado pelo facto de a curva a negro (ano de 2013) se destacar acima da curva a cinza (ano de 2009) à medida que nos afastamos da costa. Como o índice é relativo, e a base de cálculo variável, é difícil dizer quais as razões deste aproximar. Das três uma: ou o “litoral” ficou mais pobre e o “interior” mais rico; ou o poder de compra cresceu mais no “interior” que a média nacional; ou o poder de compra desceu mais no “litoral” que no “interior”. No entanto, qualquer que seja a teoria, na prática o “litoral” e o “interior” ficaram mais próximos entre 2009 e 2013 no que ao poder de compra diz respeito. A realidade parece avançar em termos contrários àquilo que é proclamado pelo ad eternum discurso das “crescentes assimetrias regionais”. Podemos criticar que 7% é um aproximar tímido, concordo, mas é um aproximar, não é um divergir. E se o nosso ponto de partida for errado, que esperar então do ponto de chegada?

Os histogramas seguintes tentam sublinhar o meu ponto de vista. Eles mostram a diferença entre o índice de poder de compra em 2013 para o verificado em 2009. Barras a vermelho e azul escuro mostram o número de municípios em que a variação do poder de compra foi negativa durante os anos e os territórios em questão. Verificamos que no “litoral” houve uma proporção maior de municípios a perder poder de compra do que no “interior”. Podemos ver também que a magnitude das perdas em distritos do “litoral” pode chegar aos 30 pontos do índice enquanto que no interior as perdas ficam-se pelos 10 (já o máximo dos ganhos é semelhante em ambos os casos).

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Variação do poder de compra nos municípios entre 209 e 2013.

Com o litoral e o interior mais “juntos” no que ao poder de compra diz respeito, podemos dizer que Portugal era, em 2013, um país territorialmente menos desigual que em 2009. Pena é que a igualdade tenha sido provavelmente nivelada por baixo, ou seja, com um empobrecimento geral do país. No entanto, o “interior” parece ter sido mais resiliente que o “litoral” durante os anos investigados, algo que lhe permitiu um ganho relativo do poder de compra. Parece que a velha máxima de que os pobres ficam mais pobres e os ricos mais ricos não se aplica ao território nacional nos termos analisados neste blog.

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Cozinha

Às favas..

Não, não as deixo fugir, prometo-te linguiça. Espera que elas vão ceder, talvez dure mais algum tempo mas vão ceder. Depois, quando a fortaleza ruir, que é como quem diz, quando a casca se rasgar, poderás por fim invadir o teu domínio natural, o interior da fava. Que belo paraíso vais encontrar, que coisa do outro mundo, uma fava, coisa nunca vista por estas terras de Frederico, sim, a tirania da batata é forte. Não, não estou a dizer mal do tubérculo milagroso, aquele que resgata nações da fome. Apenas o estou a mandar à fava, porque elas são bem melhores. Mas linguiça, deixemos a conversa para outro dia. Acaba lá a tua tarefa. Eu ajudo um pouco desorientando as favas. Olha como estão tontas, olha como cresceram. Corre para elas, abraça-as, evangeliza-as meu missionário do sabor! Depois eu lá tratarei do resto. Que resto? Ora essa, o resto de sempre, do caminho para o inferno.

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Cidades

Suspiros…

Existem lugares em Bradenburgo onde a história ainda suspira. São na sua maioria lugares que foram abandonados e onde o turista comum não se atreve, visto que quase sempre prefere a salsicha à história, ou seja, mais fácil de digerir. Mas talvez seja melhor assim, talvez assim os suspiros durem mais tempo e não sejam transformados ferozmente em negócio. Antes que tais lugares sucumbam ao avanço do tempo tenho especial prazer em me perder nas entranhas de edifícios que outrora foram de outros e para outros. Gosto de adivinhar para que servem todas aquelas máquina agora ferrugentas, gosto de verificar os números nos contadores de electricidade e água. Gosto de abrir portas que gemem de dor ferrugenta e soalhos de pó.

Na vila de Beeliz, por entre um mar de pinheiros, ergue-se um velho hospital construído em 1898 e originalmente dedicado a doença pulmonares. Durante a primeira grande guerra o hospital viu passar pelas suas portas a cerca de 17500 soldados de orgulho, alma e carne ferida, incluído, o na altura desconhecido Adolfo H. Depois da segunda grande guerra o complexo hospitalar passou a ser gerido pelo exército vermelho/Russo até 1994. Depois foi o abandono total, a ocupação dos edifícios por sem abrigo e a ocorrência de vários actos de vandalismo. Em 2015 renasceu a esperança e o investimento no complexo. Não mais como hospital mas como monumento e futuro lugar para se viver de modo criativo.

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Monólogos de peixe…

É obrigatório saudar a tua rara presença trazendo-te de novo à vida. A tua hibernação de sal foi longa e desidratante e a tua viagem dolorosamente compacta, até mesmo para o indivíduo plano que és. Mas não te deixes enganar pelo novo flutuar, é tudo uma questão de tempo até te afundar num mar de azeite, cebola e alho em combustão. Da ressurreição à morte em três dias, acho que para outros é ao contrário. Penso que és o único peixe que ressuscita antes de voltar a morrer, será? Somos cruéis eu sei, é a nossa fraqueza, assim como todos os animais as têm. A diferença é que nós temos o poder de reflectir sobre esta fraqueza e tu não, é essa a única coisa que nos distingue. Em breve nem essa coisa servirá de distinção já que o puré está pronto e o forno quente. Vais ser incorporado nas minhas células, nos meus ossos, se quiseres ser bíblico podemos dizer que vamos contrair matrimónio passando a ser “uma só carne”. Que vida a tua de peixe que acaba em carne. É o ciclo da vida, um dia também eu serei o teu alimento depois da terra me sugar e te devolver os nutrientes hoje por mim emprestados. Mas enquanto esse dia não chega descansa em paz…

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Dupla…

Não há fome que não dê em fartura! Quiseram os funcionários da empresa responsável pela impressão da Voz que a subida do Chaves à primeira divisão fosse comemorada de forma inédita. Para tal, enviaram-me no fim de semana passado não um mas sim dois exemplares do jornal!

Duas vezes Chaves, duas vezes um túnel colosso, duas vezes 1.6 milhões para alavancar a exportação de vinhos do Douro, duas vezes o terceiro lugar do quarteto de cordas do conservatório de Vila Real na quinta mostra musical do eixo Atlântico,  duas vezes dois milhões investidos na remodelação do centro hípico das Romanas (Vila Pouca de Aguiar), assim vai esse interior deprimido…

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Cidades, Outros

Estudos interiores (transferências)

Continuamos a série de posts onde tentamos desvendar melhor esse “interior” que tanto ocupa o discurso político. Depois de um olhar para a demografia damos agora atenção às transferências monetárias recebidas pelas autarquias para gastos correntes ou investimento provenientes da administração central. Diz o senso comum que o interior é desfavorecido neste aspecto e que o grosso dos gastos é feito no “litoral”, que, como já vimos anteriormente, se confina na sua maioria a centros urbanos, estejam eles perto ou longe da costa.

Em termos absolutos é lógico que o “litoral” receba a maior fatia das transferências vindas da administração central. Afinal de contas 80% da população vive lá. Mas mais relevante para o discurso do “interior”, e também para o de um Portugal solidário (ou coeso), é saber quantos euros transferidos da administração central calham a cada Português. Assim sendo vamos dividir o total das transferências do estado em 2014 para cada município pela população que lá vive. Para tornar as coisas mais interessantes vamos distribuir os resultados pela nossa velha conhecida distância do município à costa. Já agora todos os dados são retirados do site PORDATA para o ano de 2014, excepto distância à costa.

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Relação entre as variáveis distância à costa e transferências/pessoa para os Municípios Portugueses. Dados PORDATA

A “olho nu” podemos observar uma leve tendência para maiores transferências per capita do estado à medida que a distância à costa aumenta. A tendência, apesar de significativa, é muito fraca. Municípios do “interior” tanto podem apresentar valores relativos bem acima como bem abaixo da média, por exemplo Barrancos e Bragança respectivamente. Uma vez mais estamos na presença de uma realidade mais complexa que o usual “linearismo” político.

Prosseguimos dividindo para nossa conveniência os Municípios pertencentes ao “litoral” daqueles situados no “interior” geográfico (pontos vermelhos e azuis respectivamente). Reparamos que, apesar da variação acentuada nas dois grupos, os Municípios do “interior” possuem em média um rácio transferências/população bastante superior do que os situados no “litoral”, 743 e 309 €/pessoa respectivamente.

Devido às baixas densidades populacionais do “interior” justifica-se que exista um financiamento acima da média a esses Municípios de modo a ser possível manter, por exemplo, sistemas básicos que são profundamente ineficazes do ponto de vista monetário, transportes, água, saneamento etc… mas fundamentais do ponto de vista social.

É possível então verificar que existe tendencialmente uma “discriminação positiva” do “interior” no que diz respeito à variável analisada. É esta descriminação suficiente para corrigir as ditas assimetrias entre “litoral” e “interior”? Não sei. Determinar isso não cabe a mim mas sim a quem é pago para delinear e implementar políticas. Mas quanto a isso falamos depois do próximo post.

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