Mapas

De Cevide a Viseu: Um incêndio de duas décadas.

Poucos de nós conhecem Cevide. Eu próprio confesso que nunca lá pus os pés. De Cevide sei apenas que se trata da localidade mais a norte de Portugal e o local ideal para dar início a um incêndio de grandes proporções. Quão grande? Bem… apenas igual à área de todos os incêndios ocorridos em Portugal continental entre 1990 e 2013 catalogados pelo Instituto de Conservação da Natureza e Floresta (ICNF). Assim sendo lá me desloquei até Cevide, metafóricamente claro está, com uma caixa de fósforos na mão, também ela metafórica. Risquei o fósforo e adicionei, de modo sequencial e sempre em direcção ao sul, a área de todo e qualquer incêndio superior a 1 hectare (ha) até esgotar o catálogo.

O resultado é tão simples como preocupante e pode ser visualizado nos mapas apresentados. O mega-incêndio alastrou de Cevide até às portas de Viseu, ardendo no processo cerca de 3.000.000 ha, ou se preferirem, 28% do território nacional. O mesmo exercício pode ser feito para os incêndios que tiverem lugar apenas no distrito de Vila Real. Neste caso estamos a falar numa área aproximada de 250.000 ha, um número equivalente a 57% do distrito. Começado em Tourém (terra que também nunca visitei), o incêndio alastraria até Chaves e Vidago para vir a morrer perto de Vila Pouca de Aguiar.

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Representação da área ardida acumulada em Portugal Continental (esquerda) e Vila Real (direita) entre 1990 e 2013. Gráficos da % de área ardida para três níveis de frequência.

Os números parecem surreais. Em cerca de duas décadas ardeu o equivalente a quase 60% do distrito de Vila Real! Como é possível que o meu jardim ainda esteja intacto? É possível se tivermos em conta que em Portugal é “normal” a mesma área florestal, de matos ou de cultivos arder duas ou mesmo três vezes a cada 20 anos. Os gráficos de barras debaixo dos mapas mostram este fenómeno. Cerca de metade do total ardido em Portugal continental (15% do território nacional) provém de áreas que arderam uma só vez. Os restantes 13% ocorreram em áreas que arderam mais que uma vez. No caso de Vila Real esta percentagem é ainda maior. Cerca de dois terços da extensão ardida total é originária de áreas “repetentes”.

A velocidade de propagação do mega-incêndio no futuro dependerá de variáveis que todos nós conhecemos; com a negligência, o clima e a prevenção à cabeça. Caso tudo permaneça igual, o mais provável é que a totalidade do distrito de Vila Real acabe por “arder” antes do vosso filho que hoje entrou para a escola acabar a universidade.

PS: Caso estejam interessados em obter os dados utilizados e as imagens geradas deixem um comentario.

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