Cozinha, Uncategorized

Pequenas…

Todas diferentes e nenhuma igual. Uma ode contra a produção em massa de comida sem alma, sem identidade. O prazer de as fazer nascer, de as decorar, de quem sabe, as comer mais tarde. Não, não as comi, ofereci a outros, no espírito da época. Metade vegetarianas, metade saborosas, para agradar a todos, se tal for possível.

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Mini quiches de salmão e tofu…

E enquanto o natal não chega, enquanto não chega a partida, partimos em retirada para o conforto da cozinha, o coração de cada casa e sem a qual esta última é apenas uma coisa vazia…

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Não me deixes aqui…

Não me deixes aqui à mercê do tempo tendo só folhas e bichos como companhia. Folhas que eram minhas e que agora me enterram, bichos que abrigava e que agora me consomem. Ordem da vida dizem eles. Vento ou raio que te abateu. Foi a tua sina, destino, premonição, o teu lugar agora é o chão. Porquê me olhas assim pássaro, não me conheces? Malvado! Vai embora, para longe, para outro continente de preferência. Ordem da vida dizem eles, a tua hora chegou.

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Árvore caída devido aos ventos do verão passado entre Glinicker Bruecke e Pfaueninsel.

Ainda me vou rir quando eles também caírem. Quando o pássaro cair e se transformar em exército de formigas, quando as folhas se transformarem em solo e desaparecerem com as primeiras águas da primavera, quando os bichos se transformarem em… bem, bicho é bicho, é larva e será sempre larva, com esses não me preocupo muito pois ainda têm muito que trabalhar. Sim meus amigos efémeros, eu ainda persisto e aqui ficarei por vários anos, dezenas deles quem sabe. Já não vos olho de cima é verdade, mas ainda vou poder observar a vossa morte. Vista debaixo a morte dos outros não deixará de me dar algum contentamento. Árvore caída dizem eles, ordem da vida. O que importa não é quem cai primeiro mas sim que cá fica para contar a história no fim…

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“Eu não me conheço…”

De modo elegante, com uma simplicidade à prova de todo o argumento intelectual, Liza desfaz as pretensões de redenção de Fyodor. O filme esmorece neste momento, no momento em que “eu não me conheço…”

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Irina Kupchenko representado Liza no filme “O ninho dos nobres”

A segunda hora fica pois reduzida ao desenrolar lento do resultado predestinado. A moralidade sobrepõe-se ao impulso e a vida sobrepõe-se ao sonho. Liza parte para lado nenhum, o único destino que a religião oferece. Fyodor também parte, mas regressa para descobrir que mesmo após oito anos o piano de Liza ainda toca anos…

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Gnocchi…

Anda lá… corta essa batata doce em duas. Sim, em duas. Não… deixa a casca e não me enerves. Sim… eu sei que é mais fácil comprar já feitos, não é preciso estares sempre a apontar o óbvio. Hoje em dia tudo se pode comprar já feito mas nem por isso te negas a viver pois não? Sim, sim… é que hoje em dia até vidas se podem comprar “já feitas”… Anda lá. Liga o forno e coloca as duas metades lá dentro. Sim, com a casca para cima. Agora cala-te e começa a cortar os tomates.

Tem calma que as batatas ainda não cozeram, precisam de mais tempo. Queres acabar já com elas é? Deixa-as respirar o calor, suavizar, envelhecer, não lhes negues a velhice por favor, vamos precisar dela mas tarde. Para jovem já chegas tu. E já agora, não deixes queimar o alho está bem…

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Gnocchi de batata doce com molho de tomate e muito muito mais…

Pois claro, com o garfo… Eu quero ver a batata bem amassada antes de juntar as farinhas. Sim farinhas. Será que vais passar a tarde a repetir o que eu digo. Anda lá… uma chávena de farinha integral e meia da branca. Se for preciso mais junta da integral. Agora faz um cilindro com a massa, isso, podia ser melhor, mais redondo e esguio mas não te preocupes, com a prática tu tomas-lhe o jeito.

Tudo apostos? Então coloca-os na água a ferver até eles perderem o fôlego e virem cá cima para respirar. E quando se prepararem para voltar a mergulhar apanha-os, pesca-os, caça-os. Já viste as horas? Então de que estás à espera para terminares o serviço… Claro! o molho de tomate para alguma coisa serve não achas…

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Outros

Solestício da demora…

É quem sabe a pior altura do ano. Pelo menos para mim é a pior altura do ano. Uma altura em que os dias, já de si comprimidos artificialmente pelo relógio do Homem, se tornam verdadeiros farrapos de luz e vida, pois não existe uma sem a outra. Farrapos de luz numa manta de negro, de estrelas quando as há e de noites às quais é permitido um passaporte para lá do admissível.

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O meu quarto nas noites que antecedem o solstício.

Até ao solstício de Inverno é assim. Os dias não param de mingar e as noites de crescer. Tudo funciona ao contrário, os pássaros não voam porque se fartaram e foram embora. Os peixes morrem porque nadam estupidamente alegres até à superfície pensando que o céu de água se trata tal é a escuridão de ambos. É como que se esta última fosse um prolongamento do primeiro ou vice versa. Alguns, indivíduos digo, são como os peixes. Nadam na água escura da manhã para o céu escuro da tarde sem darem por isso. Do trabalho para casa e da casa para o trabalho numa rotina de escuridão.

Valha-nos dia 22, o tão desejado dia de inversão. O dia em que o dia, perdão pela redundância, regressa batalhando a noite de igual para igual até ao reduto do equinócio. Irá mais além, sim, mais além mas sempre ciente da sua morte anunciada. Mas a sua luta não será em vão mas sim em “vem”, sim em “vem”. Porque com o dia vem a luz e com ela a compreensão.  Olha lá… e o frio? O frio para lá do solstício é cortante, castigador. Não te incomoda? Não… contra o frio a música, a arte e o livro que aquece. Mas contra a escuridão, contra a escuridão que armas?

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Mapas

Portugal à la carte…

Alguns mapas são exercícios de provocação por excelência. Não é por acaso que eram (e ainda são) objectos de manipulação de propaganda política e até cientifica. Outros são apenas divertidos, exploradores dos preconceitos de uma nação ou país. Mas mesmo dentro desta última categoria, dos divertidos; não podemos deixar de reflectir se o cartógrafo estava mesmo interessado em fazer rir ou expor a frustração, a malvadez ou as assimetrias de um povo. E penso que é precisamente nestas três palavras que o mapa de Portugal apresentado encontra a sua legenda e escala.

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Mapa de Portugal fotografado de um livro que já esqueci.

Antigas colónias que  descrevíamos como “nossas”, uns vizinhos que remetemos ao vazio, as assimetrias entre as grandes metrópoles e tudo o que resta. A divisão de Portugal em três regiões é +ara mim uma incógnita. A referência a Olivença um apêndice geográfico, ou seja, ninguém precisa dele mas é sempre uma operação que ninguém quer fazer. E que dizer dos Mouros remetidos a uma esquina de Marrocos? Colectivos de espadas em meia lua a subir por ai acima como se Lisboetas fossem! Mas afinal para quê um mapa. Não podia tudo isto ser descrito em palavras? Sim podia, mas convenhamos que não tinha metade da piada, ou quererei eu dizer provocação…

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