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Ladoga…

Os Russos costumam dizer que “Pushkin é o nosso tudo”, já as pessoas de São Petersburgo dizem que “O Ladoga é o nosso tudo”. No primeiro caso honram o seu poeta máximo, aquele que lhes deu alma. No segundo caso honram o lago que literalmente lhes salvou a vida. Esquecem porém de honrar o clima. Aquele contra o qual tanto lutam mas que por dois anos consecutivos foi o maior e mais poderoso aliado.

Corriam os anos de 41 e 42; a segunda guerra Mundial estada em pela marcha e a cidade de São Petersburgo cercada a Oeste pelas tropas do eixo. Por coincidência histórica a cidade de Pedro viveria dois dos mais rigorosos Invernos da sua história recente. O ano de 1941 foi o ano mais frio desde que existem registos fiáveis (1.8 ºC de média), e Janeiro de 1942 o mês mais frio de sempre (-18.7 ºC de média).  Durante esses Invernos o Governo Soviético manteve operacional a chamada “estrada da vida”, 30 km de estrada por cima de um lago gelado que permitiu a evacuação para Este de 1.3 milhões de pessoas em direcção a Kokkorevo. Durante esses dois Invernos o lago permaneceu transitável por mais de 150 dias.

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Serie temporal de temperatura média anual e de Janeiro em São Petersburgo (1900-2016) Dados

Curiosamente, e apesar de o lado Ladoga gelar frequentemente, as temperaturas verificadas nos Invernos de 41 e 42, bem como a sua persistência, permanecem como anomalias extremas difíceis de serem repetidas. Uma coincidência histórica que perdura no saber popular e imortalizada nos dados climáticos.

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Cidades, Lugares

Páscoa farta…

Em busca do resto que é tudo. O sustento do dia, o desperdício que vale vida. Uma cadeia alimentar distorcida na qual só a presa mantém o seu papel. São bandos de bandidos efémeros, aliados de ocasião, ladrões do mar. O barco alimenta-os por descuido e alegria. Afinal de contas também merecem Páscoa farta.

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Unterwarnow

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Cozinha, Outros, Uncategorized

Ressurreição…

…e ao terceiro dia acordaram do seu sono de lata para se tornarem deusas efémeras da delícia.

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Onde estamos? Perguntam as quatro… Quem disse nos fala? Quem está ai!?

Eu, o criador! Criador da substância que vos sustenta, do calor que vos faz crescer, da bênção caramelizada que em vossas almas derrama.

E quem somos nós?

Vocês são fruto do trabalho da vida, fruto da terra e do espaço, colhidas pelo homem e preservadas pela sua indústria.

Não somos deusas?

Não… apenas fruto, tecnicamente, fatias dele.

Não somos únicas?

Não… apenas cópias uma da outra. O que a bem dizer não é problema uma vez que nós gostamos de vocês tal e qual como vocês são.

Nós? Existe mais do que um criador então?

Sim, existe, tantos que nem é possível contar. Em maior número que as estrelas e que todos os grãos de areia do mundo.

Algo está errado com esta vida após a morte. Prometeram-nos um assento à direita do nosso criador.

Não… está tudo certo porque está tudo como deve ser. A vossa vida é só de passagem e a vossa verdadeira ressurreição ainda está para vir… não à direita mas dentro, dentro de mim e de outros que vos queiram… poucos espero…

Dentro? Como assim…

Chama-se digestão, a única ressurreição possível, vossa e minha…

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Cozinha

Haja clássico…

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O mundo é composto por mudança mas por vezes as melhores coisas são aquelas que não mudam, ou melhor, que mudam pouco. Há um apego especial às coisas que mudam pouco num mundo em que existe pouco tempo para processar as coisa tais como elas são.  E por isso vamos amando o nostálgico, não propriamente o antigo,  mas daquilo que recordamos ser de um tempo que não volta. Um clássico é mesmo isso, um recordar como era, como foi e como gostaríamos que sempre fosse (nem sei se tal faz sentido gramaticalmente, mas fica a ideia). Um clássico é a justaposição de duas entidades separadas por uma trincheira. Não trincheira de guerra, não aquela que separa mas aquela que aglutina, aquela de cacau. Um clássico é uma cobertura com manteiga farta e condensado de leite quanto basta, ou seja, sempre um pouco mais do que o livro diz. E não são os livros para isso mesmo, para deles fazermos uma coisa ainda melhor!? Um clássico é o uso de ovos, porque o ovo é tão fundamental para a doçaria Portuguesa como o Nicola para os versos de Bocage. Poderia “Besta e mais besta! O positivo é nada…” alguma vez ser concebido num salão de chá?! Por mais aproximações infinitesimais de linhaça que se inventem – com as quais por vezes brinco, confesso –  um ovo será sempre um ovo, fundamental até sua forma, até na sua arte de questionar afinal o que veio primeiro? E tudo isto por causa de um clássico, bem haja! Boa noite…

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insólito, Livros

Bobok, bobok…

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Feijão, feijão. Em Russo é um termo para designar alguém de parvo ou qualificar uma situação de ridícula. És um bobok! Uma sátira do grande mestre em conversa com os mortos. Mortos esses que continuam a falar e jogar às cartas depois da enterrados numa espécie de “inércia da consciência”. Uma delícia de leitura com apontamentos dignos de registo. Por exemplo, a evidência de que já não existirem pessoas espertas pois ninguém  aparenta ter a capacidade de auto-crítica, ou nas palavras de Dostoievski, a capacidade de se auto-intitular de parvo, pelos menos uma vez por mês! Bonok, bobok…

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Fissura…

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Dessa fissura cresço sem me preocupar com o amanhã. Basta-me um pouco de terra, uma nesga de humidade e a sombra de uma pedra. Prescindo de companhias, não porque não as queira, mas simplesmente porque não me acompanham. Então vou em paz e que ninguém me acompanhe. Quando morrer não volto à terra, apesar dela ter nascido. Volto ao cimento, decaio no passeio, levado por um cão, quem sabe? Esta é por ventura a coisa mais paradoxal da minha curta existência. Consumado o facto resta-me deixar uma sementinha aqui mesmo, na mesma fissura que ao mesmo tempo me aprisiona e liberta. Fosse eu mais esperta e nasceria noutro lugar, mas enfim, este parece-me tão bom como outro qualquer, apenas um pouco mais duro.

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