Outros, Untitled

Vocês primeiro…

Ergo a cabeça para escolher os mais esguios, aqueles que se submetem melhor ao beijo da combustão. Tento que o exército de pinho não se desalinhe muito pela perda de alguns débeis soldados. Aprendi com o tempo que a eliminação do mais insignificante palito pode fazer desmoronar todo um regimento de troncos robustos que se consolam com a preguiça da parede.

Se estes não servirem voltarei para levar reforços. Mas é melhor que sirvam já que o gelo da noite ainda mina o atalho até ao quartel. Um passo em falso e lá se vão meia dúzia ao chão, eles e eu. Mas no fundo no fundo até vamos confiantes em dar conta do recado. Subimos o atalho sem olhar para trás, quem cair por lá fica. No topo do pequeno batalhão aninham-se granadas cónicas, fartas e abertas, redondas e fractais, a pedir que lhes soltem depressa as cavilhas, ou um fósforo. Se pudessem rebentavam logo ali mas eu aconselho-as a durar um pouco mais – e elas obedecem. Até o soldado mais estúpido é bom numa coisa, seguir ordens estúpidas, e um pau não é assim tão diferente de um soldado estúpido. Se é para morrer, então que a vossa morte valha alguma coisa para alguém.

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Vamos a isso… está na hora da emboscada ao quartel. Primeiro o batedor avança até à trincheira de tijolo gasto, sim, essa mesmo, marcada pela cinza de outros como tu. Ai o soldado pensava que isto do exército era só comer e dormir!? Pois bem, tem algo mais para além disso. Tem também essa coisa chamada sacrifício. Vá lá, sem demora. Deite-se de casca para cima e fique de vigia. Nunca se sabe quando o vento pode atacar e apagar a operação. Muito bem pessoal, o batedor já está em posição. Avancem as granadas devagarinho. Isso mesmo, todas alinhadas atrás do batedor e prontas para a sua perdição.

Ao meu sinal riscamos o fósforo. As granadas explodem e abrem o caminho. O batedor dá apoio à nossa incursão e nós, bravos camaradas de pau, lançamos-nos ao calor das chamas  como se não houvesse amanhã. Sim sim, ouviram bem! Lançamos-nos, tanto vocês como eu… mas vocês primeiro enquanto eu aqueço as mãos.

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Livros

Caçar traduções…

A busca por uma tradução impecável de uma obra literária pode ser morosa, mas a recompensa é imensa, tanto maior quanto mais prima for a obra. Depois de descobrir o trabalho excepcional de Richard Pevear e Larissa Volokhonsky nunca mais pus os olhos  noutra tradução de Dostoyevsky. As traduções deste casal vão para além da transposição do significado, estilo e ritmo da obra original (algo já de si dificílimo) com a inclusão de vários apontamentos históricos ao contexto pessoal da vida do grande homem.

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Seria fantástico encontrar traduções deste calibre na nossa língua, no entanto penso que existe muita pouca massa crítica de tradutores nacionais – e os que existem são potencialmente mal pagos – dispostos a tamanha tarefa. Além disso, muitas das traduções de Dostoyevsky para Português são indirectas, provavelmente do Françês e Inglês. Entre os mais conceituados tradutores directos  de Dostoyevsky para a língua de Camões está Paulo Bezerra. Vale a pena dar uma vista de olhos na sua obra, tendo sempre a consciência da presença do traço tropical próprio do Português do Brasil.

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Cidades, Lugares

Com pouco nos bolsos…

Já não sei onde li ou quem disse que “para se sentir em casa enquanto viaja um Francês leva Sartre no bolso; um Português, se pudesse, até as pedras da lareira levava”.  Não vou discutir o valor do que se escolhe levar no bolso, afinal de contas isso é um assunto subjectivo. Interessa-me sim o porquê de estar implícito que é preciso levar algo no bolso para alguém se sentir em casa.

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Quando abandono de Vila Real para voltar só daqui a meio ano a última coisa que quero levar nos bolsos são fragmentos da região. Enquanto alguns se rejubilam em ter salpicão e bacalhau na mala e contento-me em não os ter. Só não posso levar menos de Vila Real porque a família ficaria ofendida. Não faço isto por capricho, faço-o mesmo por necessidade. Só alguém que consegue transportar pedaços de Vila Real numa mala pode sobreviver para sempre em exílio –  tal como astronauta esperando cápsulas de abastecimento. Como eu não consigo tal feito, fico refém de usar a minha mala como mero empecilho estético e objecto de discórdia entre os membros da minha família.

Entre o levar pedras da lareira ou um livro prefiro levar imagens. Imagens de não mais que dois ou três momentos que sumarizem as últimas duas semanas passadas. Uma das imagens seria certamente o encontro com os antigos colegas da universidade, a segunda o espaço entre a Rua da Misericórdia e do Rossio onde outros encontros se processaram; e por último a noite de Natal com a família. Chegam essas imagens para sobreviver ao inverno? Claro que não! Mas o propósito de andar sem nada nos bolsos é precisamente esse, o de ter de regressar para os encher, em vez de ter que os encher para partir.

 

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Ciência

Solar e nuclear empatadas; mas só uma continua a correr…

Repetidamente escutamos que existem duas grandes desvantagens da energia solar em relação à energia ditas convencional. As duas desvantagens são a sua intermitência e o preço por unidade de energia produzida. Se quanto ao primeiro a luta continua para encontrar solução adequada, já quanto ao segundo as leis do progresso tecnológico parecem estar a erodir o argumento a passos largos.

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Traduzido da figura 1 em Farmer e Lafond 2016.

Trabalho recente de Farmer e Lafond compara o preço por unidade de energia eléctrica proveniente de três tecnologias tão distintas como carvão, nuclear e solar. Quando ajustada de acordo com a inflação o custo de carvão (linha sólida negra) para geração eléctrica nos Estados unidos não denuncia nenhuma tendência significativa, ou seja, o progresso tecnológico não parece ter influenciado o custo ao qual a energia é produzida via ganhos de eficiência por exemplo. O mesmo exercício para o custo de electricidade de centrais nucleares nos Estados Unidos aumentou entre duas e três vezes (notem que a escala é logarítmica) entre 1956 e 1998 (triângulos vermelhos). Ao contrario de outras alternativas os custos operacionais das estações nucleares disparam com a idade, já para não falar dos elevados custos de tratamento de resíduos.

O preço acordado (estimado) a ser pago à estação nuclear de Hinkley Point no Reino Unido  (cruz vermelho) for kWh quando começar a funcionar em 2023 é igual àquele pago hoje em dia a centrais com mais de 20 anos de idade! É pois fácil de constatar que ninguém aposta num notável progresso tecnológico na área nuclear. de outro modo a estimativa do preço seria diferente.

Finalmente a evolução do preço pago por unidade energética proveniente de módulos fotovoltaicos tem vindo a cair a uma taxa de 10% ao ano deste 1980 (círculos e linha de tendência verdes). Das três tecnologias avaliadas a energia solar parece ser a única que mostra um claro efeito positivo da evolução tecnológica. O preço actual da energia solar nos Estados unidos é competitivo em relação ao preço acordado a uma central nuclear que ainda nem começou a funcionar! Veja-se a proximidade dos círculos verdes ao preço acordado para Hinkley Point. As tecnologias estão pois aparentemente empatadas em termos de custos, mas só uma continua a correr no sentido desejável.

Se a tendência de corrida mantiver, até o preço do carvão será posto em causa. Os autores estimam que em 2030 o custo de produção da solar será de apenas 0.14$/Wp, muito perto do que é pago às centrais a carvão no Estados Unidos hoje em dia (cerca de 0.03 no equivalente em $/kWh). Quando o sol brilha, já não é desculpa evocar o custo da energia solar como um empecilho para a transformação energética da nossa sociedade.

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Outros

São fantasmas…

Resta-nos a lembrança do cheiro da erva a decair em palha, o recordar do som metralha dos pardais em fúria e a luz de então agora filtrada a zeros e uns num monitor presente. São fantasmas enamorados com o passar do tempo, objectos de tons ferrugem que o sol queima. São momentos analógicos capturados com artimanhas digitais para mais tarde provocarem sensações à prova de qualquer tecnologia. São memórias de um Outono que parecia perene, mas que acabou por sucumbir ao inevitável. São fantasmas, são fotografias, são equivalentes.

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