insólito, Outros

Plágio square…

A propósito de um cantor famoso impõe-se a pergunta: quando foi a última vez que fizeste algo de original?

Existem três dimensões que importa reflectir sobre o acto do plágio: a dimensão legal, a dimensão moral individual e a dimensão moral colectiva. A primeira é técnica e cinzenta; pão para pardais (advogados). A segunda, fazem-nos querer, é responsabilidade da pessoa/s que cometem plágio. Em nome dessa tal moralidade acusa-se e por sua ausência condena-se. O acusado reage da maneira que pode, isto é, nas entrelinhas escritas pelos pardais. Afinal admite à Sociedade Portuguesa de Autores não ser “autor” mas sim “adaptador”. A dúvida sobre a moralidade não desvanece e abre terreno fértil para a propagação da opinião pública. A favor ou contra, quase em proporções idênticas, o discurso vai morrendo até que outra notícia, mais ou menos importante, mude de faixa. Nada se perde mas tudo se esquece. É pena que assim seja porque tal implica que a última dimensão do plágio fique sempre por analisar; a dimensão moral colectiva, aquela da qual não podemos escapar.

Ainda que legalmente confirmado e individualmente confessado, a verdade é que o plágio está colectivamente enraizado. Só assim é possível que se levante um processo por causa de alguém que aparentemente plagiou músicas de outros sem se questionar que o próprio plágio é plágio de si próprio. Que as músicas copiadas são elas próprias cópias de si mesmas. Rima cruzada; “tu” “eu” “amor” “volta” no título; três minutos e pico, duas estrofes, três vezes refrão. Até as bailarinas são plágio uma da outra porque o público masculino assim delicia-se a dobrar. Resultado? Poder mediático acima de tudo e um milhão de discos de platina debaixo do braço. Ora a cerca de 30 € a grama, com uma recompensa destas quem é que não é tentado a plagiar? Culpa nossa que incentivamos e compramos o plágio em vez de preferir a originalidade; originalidade que é tão fácil hoje em dia de descobrir e comprar. Culpa nossa que “sacamos da net”. Culpa nossa que preferimos aquele que “com a força de deus venceu”, em vez daquele que, se calhar até nem vence, mas que faz tudo pela sua própria força.

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Cidades, Lugares

Gustav…

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É ele que anuncia a primavera e dá por terminado o Verão. Qual andorinha! O Gustav soa muito mais alto que qualquer pardal tonto e dita o rodar das estações em Potsdam. É a vapor mas entende muito bem a liquidez do meio onde se move, das suas quase ondas, do seu azul de fotografia, enfim, do seu sustento. Mais do que um barco é ao mesmo tempo actor e personagem, quase humano só que metálico, quase esquecido e ao mesmo tempo amado, quase a tempo, quase depressa, quase a partir. Mais sol houvesse mais ele nadaria, sempre rumo à ponte e de volta, porque a idade já é muita e o carvão esmorece depressa. É o Gustav de sempre que já viu partir outros bem mais novos que eles, aqueles com GPS pr’ó capitão tonto e UAIFAI para os passageiros tristes. Só o Inverno o derruba, esse adversário formidável. Não por ser frio, mas por levar para longe as crianças. Regressam à escola, não puxam a corda, o apito não soa e o Gustav não sorri. Voltará no próximo ano, sorridente, sempre em frente, a todo o vapor…

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Outros

Plano eléctrico…

Em 2014 a produção de energia eléctrica em Portugal rondou o 49000 GWh para satisfazer um consumo total de aproximadamente 48800 GWh. No que diz respeito à distribuição mensal de produção eléctrica os meses de Janeiro a Março foram caracterizados por um excedente de produção a rondar os 700-500 GWh. Situação praticamente inversa teve lugar nos meses de Julho a Setembro. Não fosse a consoada e muito provavelmente o mês de Dezembro seria um mês de saldo eléctrico positivo.

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Todos os dados disponíveis no site ENSOE e referem-se ao ano de 2014.

No que diz respeito às fontes de produção eléctrica, uma boa parte dela provém de fontes renováveis (gráfico à direita) com destaque para a energia hídrica e eólica. Electricidade gerada por via de biomassa perfez apenas 5% da produção renovável enquanto que a fracção solar mal chega ao 2% (em comparação este valor na Alemanha ronda os 7%). Em 2014, mesmo durante os meses em que energia renovável atinge o seu mínimo (Junho-Setembro), a produção de electricidade de fontes renováveis é responsável por 44 a 50% da produção total de electricidade. As fontes fósseis (gráfico à esquerda) ajudam Portugal a aguentar o Verão com um pico de produção entre Julho a Setembro na casa dos 2000 GWh; mesmo assim insuficientes para satisfazer o consumo nesses meses (ver gráfico anterior).

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Sem nos preocuparmos com políticas nem preços (afinal de contas desde quando é que o ser humano é racional?), imaginemos o seguinte exercício de lógica: Qual a capacidade extra a ser instalada, para que em cada mês do ano a produção eléctrica Nacional seja garantida em 80% por fontes renováveis? Mais! Sabendo de antemão que a capacidade hídrica se encontra saturada e que a construção de novos parques eólicos estagnou, por quantas vezes teríamos de multiplicar a presente produção solar e de biomassa para atingir a referida meta? Claro está, assumindo que poderíamos proceder ao armazenamento da energia solar em nossas casas para as horas de maior consumo.

Em primeiro lugar as boas notícias. Em 2014, um mero aumento de 0.3 a 0.5 vezes da capacidade instalada de biomassa seria suficiente para atingir a meta dos 80% de electricidade limpa fornecida nos meses de Janeiro a Abril. De modo a manter o uso de electricidade de fontes fósseis nos 20% durante os meses de Maio a Dezembro, seria necessário duplicar a capacidade instalada de biomassa e multiplicar entre sete a 20 vezes a capacidade solar nos respectivos meses.

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A escolha entre duplicar a produção eléctrica por biomassa e empurrar a maioria do esforço para a solar é claro arbitrária. Mas tendo em conta 1) a queda acentuada dos de preço dos painéis solar, 2 ) as tecnologias de armazenamento  e 3) o potencial de crescimento em Portugal; penso ser racional admitir que a “limpeza” da energia eléctrica em Portugal passa pelo aumento significativo deste tipo de energia. Esforços em estabelecer sistemas de armazenamento viáveis estão também em curso.

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Rimas

Ele que tanto gostava da Primavera…

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Ele que tanto gostava da Primavera
Viu-se rodeado por um Inverno sem fim.
Bendito seja o fruto
Fruto que dá a terra
E não o da capela
Que não tem nem um jardim.

Braços abertos ao Mundo
Chegam ao céu, giram a nora.
Trigo em ondas, milho a prumo
E a ressurreição da poda.

Ele que tanto gostava da vida
Viu-se obrigado a matar seu semelhante.
Por amor a um farrapo
Que outros chamam bandeira
Atirou à primeira
A mando do comandante.

Braços abertos ao Mundo
Tocam o céu, raspam a cova.
À sombra da cruz, imundo,
Uma criança e um pai que não acorda.

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Lugares, Política

A verdadeira face das sanções…

Passados quatro anos de sanções económicas e política à Rússia, importa escrutinar as implicações do caminho escolhido para castigar a anexação da Crimeia e a desestabilização do Leste da Ucrânia.

Ponto de situação: O conflito na Ucrânia permanece congelado e longe dos olhares mediáticos dos jornais. A Crimeia permanece sobre administração Russa sem que seja visível qualquer descontentamento para impor uma reversão da soberania. A tão anunciada segregação da comunidade Tártara ou não aconteceu ou se aconteceu ninguém deu por isso. No plano Mundial a Rússia parece ter-se tornado a nova potência informática dada aparente facilidade com que se intromete nos resultados de eleições de países muito mais desenvolvidos.  Tal parece ter sido o caso nos Estados Unidos. Macron também seu a entender que En Marche sofreu ataques Russos e até a Alemanha está redobrar esforços para proteger as eleições de Setembro de piratas Moscovitas.

Na síria a Rússia continua a defender a permanência no poder de Assad e, se quiser, bombardeia como lhe apetece. Finalmente, o grande culpado de tudo, Vladimir Vladimirovich Putin, continua a desfrutar de um imenso apoio popular. Se alguma esperança havia de vergar a população pela via económica a mudar de líder, tal parece não estar a resultar.

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Babuskas a vender legumes perto da estação de Lomonosovskaya. O mercado informal cresceu desde 2014 como forma de compensar a perda de poder de compra. 

Se no plano político tudo permanece quase igual, ou ligeiramente pior, à situação vivida em Março de 2014, onde podem ser vistas as verdadeiras consequências das sanções? Estas podem ser observadas no local onde nenhum político que as sugeriu se atreve a ir; às ruas e às casas das pessoas comuns. Basta um número de entre tantos possíveis para  cristalizar de forma fria a nova realidade do Russo comum. Em 2015 a Rússia viu crescer em 3 novos milhões o número de pobres (rendimento diário inferior a 5 Euros). Um ano, três milhões de novos pobres.  Esta é a verdadeira face das sanções. Pessoas empurradas para a destituição por capricho daqueles que pensam saber fazer diplomacia. Pessoas que não têm culpa alguma nos desígnios política Russa. Admitir que a culpa das sanções é no fundo dos que elegeram um líder expansionista implica reconhecer que o povo Russo tem um sistema democrático livre! Algo que simplesmente não é verdade.

Como adiro ao principio de Russell de que “não deve existir nada merecedor de consideração por parte de um político a não ser o melhorar da vida do cidadão”, as sanções económicas impostas à Rússia são um fracasso.

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Cozinha, Lugares

Piramidal…

Veio hoje a saudade de uma piramide como aquelas que tantas vezes comi na Gomes. O resultado é uma aproximação à escala 1 para quase lá. Mas o que conta é a magia de as comer e não a equação que as produziu. Não dá para matar, as saudades claro está, mas serve para manter a tristeza na cova até que outro, desejo pois bem, se levante. Hoje tudo é piramidal…

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